Ruy Fabiano
O que esperar politicamente de 1998? O ano começa com o esforço concentrado do Congresso, examinando temas vitais como as reformas previdenciária e tributária - e não vai muito além disso. Finda a convocação, o país entra em ritmo de sucessão presidencial.
O que não for aprovado na convocação extraordinária não o será mais - não ao menos no atual governo. Do ponto de vista administrativo, o grande risco é exatamente este: que o ano dure apenas os seus três meses iniciais.
O desafio do presidente Fernando Henrique, candidato à reeleição, é o de compatibilizar situações antagônicas: a de chefe de Estado, incumbido de gerir delicada crise econômica e social, e a de protagonista do processo eleitoral.
Enquanto o chefe de Estado estará frequentemente sendo pressionado a adotar medidas impopulares e restritivas, o candidato estará no outro extremo, sendo estimulado a gastar e a prometer. Como na história republicana brasileira jamais houve reeleição, não há antecedentes de tal conflito que permitam balizar o futuro.
O calcanhar-de-aquiles do governo é, como advertiu o senador José Sarney, o agravamento da crise social - o desemprego basicamente. O PT já definiu que esse é o ponto sobre o qual trabalhará eleitoralmente. O Plano Real, grande trunfo de Fernando Henrique na eleição passada, perdeu parte de seu charme após a crise asiática.
É claro que é ainda um ativo político importante, mas tende cada vez mais a diluir-se como trunfo eleitoral. Há pontos em comum no discurso eleitoral de Lula e José Sarney, que ideologicamente trafegam por estradas distintas. Ambos centram na política neoliberal do governo as responsabilidades pelas dificuldades presentes.
O senador Sarney, como Lula, acha que o governo conduziu o país a uma cilada, tornando-o refém dos capitais externos. Dentro dessa óptica, o pior ainda está por vir. O país cada vez mais perde competitividade externa e terá agravados os índices de desemprego.
O presidente-candidato pretende enfrentar essas críticas com presença cênica afirmativa - e obras. O plano Brasil em Ação, que reúne obras em todo o país - muitas das quais iniciadas em governos anteriores -,pretende mostrar que o país não se curva ao discurso derrotista e está reagindo. Será também o pano de fundo eleitoral do presidente, que marcará sua atuação em 1998 por inaugurações em série, que dêem de sua gestão, até aqui escassa em obras, imagem dinâmica.
Já vai longe o tempo em que se dizia que governar é abrir estradas. A frase é de Washington Luiz (que, aliás, foi deposto), mas tornou-se subitamente atual desde a eleição municipal passada, quando candidatos de modesto currículo político, como Celso Pitta (SP) e Luís Paulo Conde (RJ), venceram nomes ilustres pelo simples fato de que passaram ao público a idéia de que eram bons tocadores de obras.
É com esse perfil que Fernando Henrique pretende se apresentar na campanha da reeleição, neutralizando críticas à recessão e ao desemprego. A guerra envolve mais marketing que política - e já começou.





