Ruy Fabiano
O discurso de candidato do senador José Sarney (PMDB-AP) já está pronto. Concentra-se em críticas à incapacidade do Plano Real de propiciar crescimento econômico e gerar empregos e tem como proposta alternativa a revisão do processo de abertura da economia brasileira.
É um discurso radical para os padrões do senador, que até aqui buscou manter canais de aproximação e entendimento com o governo Fernando Henrique. Na medida, porém, em que as pesquisas indicam que o índice de aprovação ao presidente está em declínio e que o do ex-presidente é bastante razoável, as coisas se transformam.
Recente pesquisa Vox Populi/Diários Associados constatou que a candidatura Sarney forçaria um segundo turno. Levando-se em conta a distância do pleito e a circunstância de que Sarney não se lançou candidato, a marca não é desprezível. Em política, não há adesões gratuitas. Adere-se sempre em troca de algo.
Quando há cacife - e é o caso de Sarney -, negocia-se a adesão ou desafia-se o interlocutor. O desafio pode ser um expediente de negociação. No caso de Sarney, é improvável. O teor de seu discurso não sugere que esteja em busca de soluções conciliatórias. O que se quer é a legenda do PMDB, o que não é tão simples como parece.
Até aqui, o partido está longe de uma definição sucessória. Sua porção governista, que quer atrelá-lo à candidatura de Fernando Henrique, ganhou inesperado reforço com a adesão do senador Pedro Simon (RS), que acha inútil o partido tentar candidatura avulsa.
Seu raciocínio é pragmático: ou o partido define logo seu apoio - e se credencia a melhor posição dentro da base parlamentar do governo - ou embarcará numa aventura eleitoral sem chances. Não é o que pensa o presidente do PMDB, Paes de Andrade, envolvido até o pescoço em articulações em busca de candidatura única das oposições.
Paes, que incentivou a candidatura Sarney, hoje se inclina mais pela do senador Roberto Requião (PR), por entendê-la mais favorável à aglutinação das esquerdas. Lula e José Dirceu, do PT, já admitiram que em torno de Requião é possível obter a unidade.
Resta saber o quanto Requião aglutina ao centro, onde seu nome possui considerável grau de rejeição. Tal como Ciro Gomes, candidato do PPS, Requião adota o figurino utilizado com sucesso por Fernando Collor em 1989. É um discurso que sataniza a figura do presidente Fernando Henrique, crivando-a de denúncias, na tentativa de elevar a temperatura política do país e passionalizar a campanha.
A estratégia é vista com restrições nos meios mais conservadores, que Sarney sensibiliza com mais facilidade. A proposta de revisão da política de abertura é bem-vista pelo empresariado nacional, que, no entanto, está longe de apoiar discursos desestabilizadores, na linha passional encarnada por Requião e Ciro Gomes.





