O presidente Fernando Henrique celebrará as festas de fim de ano em ambiente de razoável euforia. Apesar de todos os pesares, sua candidatura continua favorita, seus adversários cada vez mais confusos e, como se não bastasse, acaba de conquistar o título de personalidade latino-americana de 1997, conferido pela revista ‘‘Newsweek’’.
Nem tudo, porém, são flores. O presidente sabe que o aguardam, no ano eleitoral que se avizinha, numerosos desafios políticos cuja solução exige mais que bagagem cultural e prestígio externo. O nó cego das alianças políticas ecléticas, que se unem em Brasília mas duelam nos Estados, terá que ser forçosamente desatado no bojo das campanhas.
Em São Paulo, as relações com o governador Mário Covas e os tucanos estão cada vez mais tensas e não há aparentemente margem para manobras. Há riscos de rompimento, o que seria dramático para o presidente, cujo domicílio eleitoral é exatamente São Paulo.
O presidente, por enquanto, não tem muito o que fazer. O PPB de Paulo Maluf, pomo da discórdia, é aliado do PFL em São Paulo. Despachá-lo significa não apenas perder os votos do partido no Congresso como comprar uma briga também com o PFL. Mantê-lo, por outro lado, significa aprofundar os atritos com Mário Covas.
O PSDB paulista quer que Fernando Henrique tome partido em favor da candidatura Mário Covas contra Paulo Maluf. Quer mais: quer que Maluf fique de fora da campanha da reeleição. Maluf, por sua vez, exige participar do comitê interpartidário da reeleição. Não pede a Fernando Henrique que suba em seu palanque, mas claro, não quer também que suba no de Covas. Pede distanciamento quanto ao peleito estadual.
Fernando Henrique confia em apaziguar Covas com verbas. Até aqui, o governador paulista tem se queixado de maus tratos pela área econômica, que não autorizou ainda a importação de trens doados pela Espanha, retarda avais para liberação de empréstimos, submete-o a impiedosa burocracia e coisas do gênero.
A Lei Kandir tirou-lhe recursos de R$ 800 milhões de ICMS, com os quais pretendia deflagrar obras ao longo do próximo ano, no melhor estilo César Maia. Como se não bastasse, o repasse de créditos tem sido lento e escasso, o que não ocorre, por exemplo, em relação ao prefeito Celso Pitta, aliado de Maluf.
Situação complicadíssima - e com um detalhe: não é isolada. Em graus variados, o quadro repete-se no Paraná, Amazonas, Rio de Janeiro, Bahia etc. etc. Há poucos dias, o secretário-geral do PSDB, deputado Arthur Virgílio (AM), desancou publicamente o presidente, acusando-o de andar em más companhias. Referia-se ao governador Amazonino Mendes (PFL), o equivalente amazônico de Maluf, cuja adminsitração o governo federal estaria prestigiando em detrimento dos tucanos.
O presidente sabe que há más companhias em sua base política, mas não pode dispensá-las nem para governar, nem para reeleger-se. O jeito é continuar, já deixaram claro que não têm vocação para o suicídio.

mockup