A vinculação explícita do Movimento dos Sem Terra (MST) à candidatura do PT enfraquece um sem fortalecer o outro. O MST, estabelecido o vínculo, perde a capacidade de aglutinar apoios mais amplos, da sociedade e dos partidos, enquanto o PT acrescenta pouco (se é que acrestenta alguma coisa) aos votos que já possui.
O raciocínio, sustentado por um dos líderes do MST, José Rainha Junior, é contestado por João Pedro Stédile, o outro líder da causa. Rainha quer o MST fora do tiroteio sucessório, a menos, claro, que os partidos de oposição se unam em torno de uma candidatura única.
Somente aí ele admite que haja vinculação do MST com alguma candidatura. ‘‘Temos compromisso com os partidos de esquerda que apóiam a luta pela reforma agrária’’, diz ele. Mesmo aí, no entanto, o vínculo é burro. Há partidos que não são de esquerda - o PMDB, por exemplo - que se posicionam favoravelmente à causa do MST.
Por que exclui-lo do rol de simpatizantes? Há regiões - Rio de Janeiro, por exemplo - em que estar com o PT é criar problemas com outros partidos de esquerda, como PDT e PC do B. Mais uma razão, segundo Rainha, para evitar vínculos partidários.
O MST advoga uma causa - a distribuição de terras, via reforma agrária -, que será (continuará sendo) encaminhada junto ao futuro governo. Para que a entidade possa continuar dispondo de autoridade e força de pressão, é preciso que esteja despojada de interesses de facções políticas. O vínculo partidário pode ajudar a produzir mais barulho, mas seguramente produz menos resultados práticos.
Também aí cabe a ponderação estratégica: por que tornar o atual governo, que pode vir a ser o próximo, inimigo? É bem verdade que as relações entre ambos não são exatamente boas, mas não precisam azedar de vez. O vínculo explícito com o PT tornaria isso inevitável.
De certa forma, o MST jamais foi exatamente neutro nessa matéria. A ligação com o PT sempre esteve presente. Houve, no entanto, em alguns momentos, empenho em mostrar que esse vículo decorria muito mais do esforço do partido em fazer presente nas ações da entidade que o contrário. Agora, porém, o vínculo está sendo objeto de conflito doutrinário entre as duas lideranças máximas do MST.
Stédile quer formalizar a dobradinha com o PT. Há dois dias, levou Lula para um ato público dos sem-terra em Chapecó, Santa Catarina, que acabou se transformando num comício eleitoral do PT. Lula desancou Fernando Henrique e exercitou sua retórica habitual. Não se ateve, em seu discurso, a questões agrárias, que envolvem o universo de ação e de interesse do MST. Foi bem mais longe, servido-se da ocasião como o faria em qualquer outro comício.
O conflito entre Stédile e Rainha está remetido ao encontro nacional da direção do MST, previsto para fevereiro. Até lá, o PT pretende fortalecer seus vínculos com a entidade, de modo a garantir o triunfo da tese de Stédile.

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