Ruy Fabiano
O que está em pauta, na crise política entre o PSDB paulista e o presidente Fernando Henrique, é uma velha lei da física, segundo a qual dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço.
Os dois corpos, no caso, são o PSDB e o PPB. Ou, personalizando ainda mais, Mário Covas e Paulo Maluf. O espaço comum que ambos disputam é o primeiro plano do palanque presidencial da reeleição.
Fernando Henrique precisa de ambos para seus planos reeletivos - e ambos precisam de Fernando Henrique para disputar o governo de São Paulo. Já estiveram, porém, mais frágeis nessa dependência. Neste momento, é Fernando Henrique que está mais vulnerável, sob o desgaste da crise econômica, que reduz seus índices de popularidade.
Ninguém, no duro, quer romper com ninguém. Primeiro, porque é muito cedo para definições - e rompimento é definição; segundo, porque, em política, romper é sempre medida extrema, que se toma quando já não há o que fazer. No caso presente, a briga está apenas no começo, e ainda se acredita que há muito por fazer.
Covas se sente um enjeitado político, desde que o presidente Fernando Henrique se aproximou politicamente de Paulo Maluf, há alguns meses. Pressionado, o presidente argumentou que não poderia abrir mão dos votos do PPB no Congresso, nem do apoio à sua reeleição. Mas prometeu ao PSDB paulista um convívio discreto e moderado com Maluf, o que inclui o compromisso de não subir em palanques malufistas.
Eis, porém, que a área econômica do governo, que, segundo Covas, o tem tratado com o rigor que se dispensa a adversários - negando créditos e dificultando repasses -, acaba de contemplar o prefeito Celso Pitta, malufista, com duas boladas: uma do Banco do Brasil (R$330 milhões), outra do BNDES (R$ 70 milhões).
Covas, enquanto isso, aguarda liberação de R$ 145 milhões que pediu para reformar vagões de trens doados pelo governo espanhol. Antes disso, o governador já se ressentia de cortes orçamentários impostos pela Lei Kandir, que representou perda de receita de R$ 800 milhões, com os quais contava para deflagrar uma série de obras durante o ano que vem, período de campanha eleitoral.
É improvável que esteja havendo qualquer tipo de sabotagem contra o governo de Covas. O ministro Antonio Kandir é do PSDB, assim como seu colega Pedro Malan. O que há é uma imensa sensibilidade dos tucanos paulistas a qualquer aproximação com o malufismo.
As pesquisas de opinião em mãos do governador Mário Covas indicam que Paulo Maluf desfruta de boa dianteira para governo do Estado. É mais a essa circunstância - o favoritismo de Maluf - que propriamente ao comportamento do governo federal que se deve debitar o recente gesto de Covas de renunciar à reeleição (renúncia mais coreográfica que efetiva).
Por enquanto, as ameaças de rompimento não passam de pressão, com vistas a ganhar espaço sobre o adversário - no caso, Maluf. Fernando Henrique já se acostumou a conviver com ciúmes políticos, o que não significa que saiba exatamente como administrá-los.





