A hipótese sucessória menos temida por Fernando Henrique é a que o recoloca na disputa diante de Lula e do PT. Dificilmente, segundo suas projeções, seria derrotado. Lula não aglutina o centro-esquerda e, a rigor, nem a esquerda e nem mesmo todo o PT.
Os votos oposicionistas se diluiriam e, na eventualidade de um segundo turno, a classe média voltaria a optar pelo que já conhece, votando em legítima defesa, com diz Delfim Netto. A hipótese mais temida é exatamente aquela com que sonha o presidente do PMDB, Paes de Andrade: a candidatura do senador Roberto Requião (PMDB-PR).
Segundo avaliações de peso, Requião uniria esquerdas e centro-esquerda, podendo causar estragos de grande porte. O presidente do PT, José Dirceu, já declarou que a única hipótese de o partido abrir mão da candidatura Lula é mediante acordo em torno da candidatura de Requião. O PT não aceita Ciro Gomes ou Itamar Franco, mas, surpreendentemente, apaixonou-se pelo estilo Requião, uma versão contemporânea e menos ilustrada do legendário Carlos Lacerda.
Requião faz o estilo rolo-compressor, o que o assemelha a Fernando Collor, de quem possui também o olhar irritado, sempre prestes a saltar da órbita. O denuncismo tem sido sua bandeira de ação política, o que o aproximou do PT na recente CPI dos Precatórios.
Além do gênero trombador, Requião teria atrás de si amplo espectro político, capaz de atrair a frustração da classe média, à base de denúncias de improbidade administrativa e de fisiologismo político. Enquanto o PT cuidaria de promover manifestações de rua, mobilizando sindicatos e outras entidades da sociedade civil, Requião, como um Lacerda redivivo, se ocuparia de encaminhar denúncias e pedir providências, em nome da moral administrativa. Não mais estaria em pauta a discussão em torno do Plano Real, mas de sua gestão inadequada e do desprezo do governo por questões sociais. Essa a soma de tal aliança.
É claro que, para coroar tal processo, conta-se com o aprofundamento da crise econômica, que dificultará ações eleitoreiras por parte do governo. Sabe-se que, antes da crise asiática, o governo projetava para o início do próximo ano uma série de medidas tendentes a gerar um aquecimento circunstancial da economia, à base de obras e outros incentivos, absolutamente sepultados pelo pacote fiscal.
Até aqui, não há sinais de naufrágio da candidatura Fernando Henrique. Apesar do desgaste que experimentou, continua favorita nas pesquisas, até porque não se apresentou ainda nenhum nome novo para contrapô-la. Lula, o nome de sempre, continua à distância. Ciro Gomes não gerou entusiasmo para além das fronteiras estreitas do PPS.
A hipótese Requião, que depende ainda de triunfo da tese de candidatura única dentro do PMDB, não está posta. É, por enquanto, um sonho de Paes de Andrade, José Dirceu e Requião. E, claro, um pesadelo de Fernando Henrique.

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