Escaldado por perdas sucessivas de adeptos (nada a ver com as perdas internacionais de que tanto fala Brizola), o PDT está se antecipando à reforma política e criando um arremedo de fidelidade partidária. O partido quer impor a seus candidatos nas próximas eleições um documento, firmado em cartório, pelo qual se obrigam a pagar pesada multa caso, depois de eleitos, troquem de legenda.
A proposta dá a medida do que tem sido o prejuízo dos partidos com o vaivém dos políticos. A eleição de um candidato é investimento alto, que, em regra, se contabiliza na casa dos milhões de dólares. Investir em alguém e depois vê-lo, com a maior serenidade, mudar de legenda é, de fato, frustrante.
Brizola argumenta que, mais do que o partido, quem se sente lesado é o eleitor. Não há dúvida. Um dado significativo desse desarranjo partidário é a estatística do vaivém na atual legistatura. O PMDB foi o partido que mais perdas sofreu. PFL e PSDB, partidos que comandam a aliança governista, foram os mais beneficiados.
Estar no poder é fator de atração. Não há idéias ou propostas, mas tão-somente interesses. No início da atual legislatura, o PSDB vivenciou um conflito interno que colocou em tribunas opostas o seu então presidente, Pimenta da Veiga, e o ministro Sérgio Motta.
O ministro defendia a ampliação da legenda a partir de adesões de parlamentares de outros partidos. Pimenta argumentava que a estratégia era perigosa: ganhava-se em quantidade, perdia-se em substância e credibilidade. Motta saiu vencedor - e o PSDB ampliou seus quadros.
As previsões de Pimenta, no entanto, se confirmaram. O partido, de concessão em concessão, passou a receber adesões que violavam seus padrões de qualidade mais primários. A certa altura, o próprio Sérgio Motta protestou. Achou que a adesão do ex-governador mineiro Newton Cardoso era um exagero. E então, assumindo a retórica de Pimenta, denunciou os perigos de um ‘‘partido-ônibus’’, aquele que despeja e embarca passageiros, sem exigências ou critérios.
Já era tarde. Newton Cardoso já estava embarcado e solidamente instalado em seu espaço regional, com todos os ônus de uma biografia problemática. O custo da infidelidade não é só monetário - é político, moral e operacional. O presidente Fernando Henrique que o diga. Embora possua maioria folgada (do ponto de vista numérico) no Congresso, enfrenta, a cada votação, verdadeira gincana para garantir votos.
Sem fidelidade, não há compromissos com doutrinas, programas ou alianças. Não há responsabilidade política. Cada qual faz o que quer com o seu voto - vende, troca, aluga, anula ou (até) o exerce com dignidade. Não há garantias. Cada parlamentar é seu próprio partido, o que torna o custo das maiorias cada vez mais impraticável.
A proposta do PDT é precária. Apenas dificulta o vaivém - não o impede. Ainda que a multa a ser fixada seja alta - e ainda que tenha eficácia jurídica -, dinheiro não costuma ser o problema dos que se embalam na ciranda partidária. Ao contrário, costuma ser a solução.

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