O secretário-geral do PSDB, deputado Arthur Virgílio (AM), no seu rosário de queixas contra o presidente Fernando Henrique, acusa-o de ter trocado aliados históricos por ‘‘más companhias’’.
Cita alguns desses nomes: os governadores Amazonino Mendes (AM) e Orleir Cameli (AC) e os ex-governadores Newton Cardoso (MG), Joaquim Roriz (DF) e Paulo Maluf (SP). Todos, em alguma medida, vincularam-se à reeleição.
Na sua indignação de rejeitado, Virgílio desafia o presidente a levar os aliados espúrios (segundo ao menos seu conceito) a um comício na Praça da Sé, em São Paulo, ou em Ipanema, redutos da esquerda intelectual que, em boa parte, compareceu quando da fundação do PSDB.
De fato, o presidente certamente os dispensaria em tais redutos. Preferiria fazer-se acompanhar do próprio Virgílio, político egresso da esquerda, com formação acadêmica semelhante à sua. Não há dúvida de que esse é o padrão original do presidente. O poder, porém, subverte padrões e impõe seus próprios interesses.
O projeto de poder de Fernando Henrique, que inclui a reeleição, não se realiza apenas com o respaldo do PSDB. Para sustentar sua plataforma, que exige reformas na Constituição - e, portanto, quórum qualificado de três quintos do Congresso -, o presidente precisou agregar aliados. Como não os encontrou à esquerda, foi buscá-los à direita. E o PFL, que entrou na campanha de Fernando Henrique pela porta dos fundos, acabou se fazendo indispensável.
Pôs em prática todo o seu malabarismo operacional que o mamtém no poder desde os velhos tempos do regime militar. O PSDB não tem a mesma vivência no setor. Está ainda marcado pelo ranço acadêmico, que o torna brilhante nas formulações teóricas e débil na hora de pô-las em prática. É essa uma contradição da esquerda brasileira, que tende a desaparecer na medida em que adquira alguma quilometragem no poder.
Fernando Henrique, de fato, distanciou-se de seu partido. Tornou-se excessivamente pragmático e não mais se constrange em conversar com quem quer que seja. Collor disse que, quando estava na Presidência, conversava às escondidas com Fernando Henrique. É possível. Sabe-se que o convidou diversas vezes para o Ministério das Relações Exteriores. Fernando Henrique só não aceitou porque Mário Covas avisou que, se fosse, iria sozinho, sem o respaldo do partido. Fernando Henrique teve medo e não foi. Esse medo salvou-o. Se tivesse ido, não seria hoje presidente da República. Isso ele deve a Mário Covas.
No poder, Fernando Henrique já não se sente intimidado pelo patrulhismo. Conversa com Maluf, um arquiinimigo histórico, apóia Amazonino, sela acordos com o PFL. Diante das queixas do PSDB, pede paciência, diz que está sendo pragmático, mas que não faltará ao partido.
Aos íntimos, pede-se sacrifício; aos estranhos, faz-se concessão. É o princípio que adota. A tolerância do partido está próxima do limite, mas, até por falta de alternativa, não há muito o que fazer - a não ser, claro, o que Virgílio fez: dar expansão verbal à adrenalina.

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