Ruy Fabiano
A cúpula do PT acredita que encontrou uma estratégia eficaz para atrair apoio popular à candidatura Lula: investir em manifestações de rua, como a prevista para este fim de semana em São Paulo - a marcha contra o pacote -, para capitalizar a insatisfação popular.
Ainda que não haja uma fórmula alternativa para enfrentar a crise, o PT crê na eficácia do discurso defensivista, que promete proteger o emprego, o salário, os sem-terra e a soberania nacional.
Na sucessão passada, o partido não teve sensibilidade para o fenômeno do real. Tentou atacá-lo, na contramão da euforia que a nova moeda produzia na população. Os outdoors do partido diziam então: Parece pesadelo, mas é o real. Claro, não deu certo.
Hoje, o partido acredita que a estratégia é outra. O real incorporou-se à rotina nacional. É uma conquista da sociedade e não está mais em pauta. Teria deixado de ser um ativo político. O que se questiona é a política econômica que tornou a nova moeda escassa no bolso do contribuinte. O partido quer vender a idéia de que o governo falhou na formulação econômica e, por isso, submete o País ao sacrifício do pacote fiscal, que trará desemprego e recessão.
O detalhamento desse discurso será formulado em reuniões do partido com entidades de sem-terra, sem-teto e sindicatos, a clientela básica do PT, a partir de janeiro. Antes da crise asiática, Lula estava desesperançado quanto às chances do partido. Já havia mesmo dito a alguns interlocutores que não queria ser candidato.
O súbito sufoco em que se viu o governo após a quebra da bolsa de Hong Kong mudou tudo. Correligionários de Fernando Henrique, que já o davam por reeleito, passaram a rever suas chances. Pesquisas de opinião registraram a queda de confiança no governo, embora mantendo-o ainda com razoável cotação. Medo, insegurança quanto ao futuro, as marcas do novo momento. É por aí que o PT viu o seu petróleo eleitoral, a bandeira que lhe faltava.
O partido, de certa forma, volta às suas raízes. Defenderá emprego e salário, denunciando o neoliberalismo do presidente e a incompetência de sua equipe econômica, que, contra todas as advertências, ancorou a economia no terreno movediço dos capitais externos. O PT conta com o aprofundamento da crise, certo de que o pacote fiscal terá efeito recessivo drástico.
Só não sabe ainda como convencerá o restante da oposição a se atrelar à candidatura Lula, vista como cansada de guerra e definitivamente superada. Ciro Gomes (PPS), por exemplo, acha que não basta o discurso crítico. É preciso apontar alternativas concretas, dizer o que é preciso fazer, de maneira lógica e concatenada. A opinião pública já estaria vacinada contra discursos fáceis e sem consistência. Não basta prometer o paraíso: é preciso dizer onde fica, o CEP etc.
Lula, por enquanto, limita-se a descrever o inferno, com precisão de detalhes.





