Ruy Fabiano
A receptividade que Fernando Henrique encontra na Inglaterra tem sido constante nas viagens que faz ao Exterior desde os tempos em que era ministro das Relações Exteriores de Itamar Franco. O Brasil tem sido visto cada vez mais como um país de peso estratégico, de importância crescente no cenário geopolítico internacional.
E não é apenas por ostentar o oitavo PIB do mundo, o que não é desprezível. O País, além disso, possui população expressiva - o que significa dizer mercado - e capital ambiental diferenciado, o que lhe garante assento em fóruns internacionais importantes. Meio ambiente é moeda de troca cada vez mais decisiva.
O grande adversário do País tem sido ele próprio. O Brasil continua figurando em todas as listas mundiais de países violadores de direitos humanos, sobretudo pelo quadro crônico de concentração de renda que ostenta. Que adianta ser o oitavo PIB (maior, por exemplo, que o da Espanha e próximo de superar o da Rússia) e exibir o 54º lugar em indicadores sociais, atrás de Goa e Ruanda?
O problema, claro, não começou ontem, nem se resolve com varinhas de condão. O governo Fernando Henrique, ao tempo da campanha, acenou com reformas que, além de ajustar a estrutura do País ao figurino da globalização, promoveriam a redução das disparidades sociais. Até agora, isso não aconteceu.
Os cinco dedos da mão espalmada, símbolo da campanha eleitoral, acenavam com moradia, agricultura, emprego, educação e saúde. Bastava um dedo, o do emprego, para reduzir o drama, mas foi exatamente esse o primeiro a ser decepado pelos ajustes estruturais.
A economia vai bem, mas o povo vai mal, admitia, ao tempo da ditadura, o general Médici. Pois agora ambos vão mal: povo e economia. A estabilidade do real está ameaçada por forças externas, sobre as quais o governo não tem controle.
Esse o paradoxo: o País cada vez mais visível no cenário internacional, embora internamente frágil e cada vez mais dependente de soluções externas. A crise asiática fez crescer a preocupação com o Brasil. Se o País quebrar, complica a crise internacional.
Fernando Henrique cumpre o papel de tranquilizar parceiros e recrutar investidores, valendo-se de estratégia semelhante à que adotavam os ministros da área econômica ao tempo dos governos militares: adverte que a quebra do País, facilmente evitável a partir do auxílio dos países amigos, seria desastrosa para todos - e não apenas para o Brasil. Ajudem-me e evitem o mal maior, é a frase-síntese.
O presidente é um excelente garoto-propaganda, que fala na língua do cliente e parece feito sob medida para os protocolos do poder. Os desafios internos, no entanto, são o seu calcanhar-de-aquiles. A questão social continua fora de sua agenda política e tende a se agravar com o cenário recessivo que o pacote fiscal projeta.
A sorte do presidente é que simplesmente não há oposição.





