Como era previsível, a aliança entre PT e PDT, com vistas à eleição presidencial do ano que vem, começa a fazer água antes mesmo de sair do plano das intenções. A aliança pressupunha algo simplesmente impensável: a unidade entre os dois partidos no plano regional. Já fora tentada antes, sem sucesso.
Brizola informa que está revendo os termos da aliança, pois não teria gostado da decisão do PT de adiar a formalização da candidatura Lula para março. Queria que essa formalização tivesse ocorrido agora. Brizola já foi mais criativo em inventar pretextos. Esse está fraquíssimo. Lula, por sua vez, não formalizou a candidatura agora porque sabe que ela sofre resistências poderosas.
Parcela ponderável do PT sofre assédio de outros partidos de esquerda, que entendem que marchar com Lula é cometer suicídio eleitoral. O PSB, de Miguel Arraes, que já namorou a candidatura Ciro Gomes (hoje no PPS) e busca estreitar relações com a dissidência do PMDB, está agora de olho em alguns insatisfeitos do PT.
O governador de Brasília, Cristovam Buarque, por exemplo. Cristovam busca manter as aparências, mas não é difícil constatar que está excitadíssimo com a hipótese de vir a ser o candidato de consenso das oposições. Não criticou a candidatura Lula, mas fez questão de frisar que Lula aceitou ser candidato, ‘‘mas não gostou’’.
Se gostando não funciona, não gostando o desastre será ainda maior - é a leitura óbvia. E Lula não gostou por uma razão simples: sabe que o ceticismo em torno de suas chances eleitorais é cada vez mais amplo. A rigor, a dobradinha Lula-Brizola foi a tentativa de criar um fato político de peso que pudesse sacudir as esquerdas. Não sacudiu, porém, nem os correligionários de ambos. A verdade é que Lula e Brizola, embora lideranças respeitáveis, perderam o charme político.
A sucessão de derrotas em eleições presidenciais, a mesmice do discurso e a falta de alternativas para os desafios da crise são apontadas, nas esquerdas, como fatores de esvaziamento. Do ponto de vista eleitoral, Lula não crê em Brizola, nem em si mesmo. Idem Brizola.
Sabem ambos que já não têm condições de aglutinar forças de centro-esquerda e de esquerda em torno de uma candidatura única de oposição. E a única chance das oposições é a unidade. O adiamento da formalização da candidatura Lula para março não muda muita coisa.
Nesse ínterim, o PT se envolverá em manifestações de rua - e a primeira é a marcha pelo Emprego contra o Pacote FHC, neste fim de semana, ao lado da CUT, CNBB, UNE -, no intuito de explorar a insatisfação popular contra o arrocho econômico.
É improvável, porém, que, por maior que seja essa insatisfação, venha a ser capitalizada por Lula. A população, sobretudo a classe média, pode estar (e certamente está) insatisfeita e inquieta com o sufoco, mas é certo que espera bem mais que slogans para superá-lo. O PT continua sendo um instrumento de catarse, mas não de poder.

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