Ruy Fabiano
Não é apenas em política que se diz que toda vitória tem seu preço. Levando-se em conta a natureza volátil dos votos do governo no Congresso - tão volátil quanto os capitais que até há pouco recheavam as bolsas asiáticas -, pode-se dizer que o preço é sempre considerável.
Na aprovação, anteontem, da reforma administrativa na Câmara, o governo não precisou recorrer às barganhas e concessões de costume. Serviu-se da paranóia gerada pela crise financeira internacional, usando-a como ferramenta de pressão sobre o Congresso.
É um expediente maroto (e frequente em política) o de repassar responsabilidades. O governo manejou-o com habilidade, em momento estrategicamente propício. Como se recorda, a reação primeira da área econômica e do presidente Fernando Henrique, quando da eclosão da crise internacional, foi cobrar do Congresso a conclusão das reformas.
Atribuiu-se ao Congresso a responsabilidade pelas fragilidades da economia nacional, pois estaria sentado sobre as reformas. Chegou-se a dizer, sem maiores constrangimentos, que, se as reformas estivessem concluídas, o Brasil nem sentiria o terremoto asiático.
As reformas estavam empacadas porque o governo assim o decidira. Não estava disposto a bancar o seu custo fisiológico. Esse custo, inevitável, dada a natureza infiel do quadro partidário brasileiro, tornara-se bem mais alto desde a aprovação da emenda da reeleição. Fernando Henrique já se conformara com a idéia de só retomar as reformas no próximo mandato (que, claro, era considerado favas contadas).
Eis, porém, que a bolsa quebra na Ásia, sacode o mundo e expõe a fragilidade do real. A solidez política do governo é abalada. Edita-se o pacote fiscal, com medidas duras e impopulares, e cobra-se do Congresso alinhamento automático em nome da sobrevivênvia econômica do País. A pergunta imediata que as lideranças governistas no Congresso se fizeram é se valia a pena acatar passivamente a situação.
Por falta de outra alternativa, acabaram acatando. Há, é verdade, encenações restritivas, como a do PFL, que reclama do aumento do Imposto de Renda, buscando extrair dividendos políticos de uma suposta resistência. Mas, na essência, prevalece a submissão ao quadro geral de paranóia, o que favorece o presidente. O que o desfavorece é o aumento de sua taxa de dependência política a alguns de seus mais incômodos aliados, como Antonio Carlos Magalhães (PFL) e Paulo Maluf (PPB).
Os dois tiveram papel de destaque na votação da reforma administrativa, arregimentando apoios. É certo que voltarão a ser decisivos na aprovação das demais reformas - a previdenciária e a tributária - e do pacote fiscal. A contrapartida do presidente será cobrada, o que gera reações e problemas na outra banda da aliança política, o PSDB.





