O colapso do sistema de segurança pública do País já foi cantado em verso e prosa reiteradas vezes. Não é, portanto, novidade. O tema ciclicamente retorna, a bordo de alguma aberração circunstancial.
Há alguns meses, por exemplo, policiais militares foram flagrados por câmeras ocultas em gestos de truculência explícita, em Diadema e no Rio de Janeiro. Em Diadema, filmou-se inclusive um assassinato a sangue frio, contra um inocente.
Houve revolta e perplexidade, falou-se em falência da polícia, na necessidade de reformá-la, de mudar a legislação, enquadrar responsáveis (e irresponsáveis) etc. O tema resistiu umas duas semanas, findas as quais saiu de cena, sem que as mudanças cogitadas tivessem acontecido.
Há algumas semanas, em Brasília, descobriu-se que o sequestro da filha do deputado distrital Luís Estevão fora concebido e comandado por um oficial PM, com a cumplicidade de outros. Preso em seu próprio batalhão (o que, em termos de segurança, é uma piada), o policial previsivelmente escapou, ajudado por colegas. Crise, protestos, demissões e mais descrédito para a instituição. O mesmo filme de sempre.
Há dois dias, moradores de 12 favelas de subúrbios cariocas amanheceram cercados por tropas do Exército. Estavam em busca de armas privativas das Forças Armadas, roubadas por traficantes. Tem sido de frequência alarmante o roubo dessas armas, no Rio, quase sempre por recrutas envolvidos com traficantes.
Juristas questionaram a legalidade da operação, que não fora solicitada pelo governo do Estado do Rio. O Exército exibiu mandados judiciais que lhe garantem direito de recuperar as armas roubadas.
Como ninguém bate à porta de traficante desarmado, levou-se o equipamento pesado exibido nas primeiras páginas dos jornais. O ponto, porém, não é esse. O mais signicativo é registrar o descompasso entre a opinião dos que defendem o Estado de Direito - e preocupam-se com o formalismo jurídico e a defesa das instituições - e os moradores das favelas. É natural e indispensável que se questionem a legalidade, a conveniência e o resultado prático de tais operações.
E é isso, em síntese, que parlamentares, juristas e formadores de opinião em geral o fazem. Mas aos moradores das favelas, reféns da violência urbana e do colapso da segurança pública, interessa mais o sentido utilitário das coisas. Assim é que, entrevistados por programas de rádio, a maioria dos moradores saudou a presença militar nas imediações. Dá-lhes a rara sensação de segurança.
Como não se confia mais na polícia e vive-se (sobretudo nesses lugares) a dura realidade da lei do mais forte, a presença de um Urutu, em vez de produzir pânico, traz muitas vezes euforia. É claro que isso denota grave anomalia psicossocial, mas, como das vezes anteriores, a discussão efetiva da política de segurança pública do País aguardará dias melhores.

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