Ruy Fabiano
A administração política da crise está ensejando interessante duelo coreográfico entre os dois principais aliados do governo, PFL e PSDB. Enquanto o PFL encena o papel de aliado crítico, o PSDB insiste em protagonizar o de aliado incondicional. O partido, cada vez mais, insistirá na gravidade da crise e na necessidade de apoiar, sem restrições, o pacote fiscal.
De ambas as partes, há um jogo, de intenções nem sempre sutis. O PSDB, com seu apoio incondicional, quer recuperar o espaço hegemônico perdido na base governista _ e perdido para o PFL. Quer mostrar ao presidente que, na hora do sufoco, é com os tucanos que pode contar.
O PFL optou por uma estratégia ambígua, jogando simultaneamente para o time e para a arquibancada. Não negou apoio, mas decidiu exibir independência. O presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães, tem sido o principal intérprete dessa estratégia.
Com uma mão, sinalizou contra o aumento do Imposto de Renda, credenciando-se junto à classe média; com a outra, acelerou os procedimentos para a tramitação do pacote fiscal e para as reformas ainda pendentes no Congresso. O governo, embora incomodado pelas críticas contra o aumento de impostos, não pode prescindir do apoio logístico de ACM, que, com sua inegável voz de comando, botou o Congresso para trabalhar em ritmo acelerado, entrando pelos fins de semana.
O senador é bom de marketing. Tem sabido extrair dividendos políticos pessoais da crise. Tornou-se a grande referência do governo no Congresso e, simultaneamente, projetou imagem de independência ao criticar o pacote. O PSDB, talvez por já ter encontrado esse espaço ocupado, optou por outra estratégia e vai insistir nela.
Ontem, o alto comando do partido reuniu-se na residência do líder na Câmara, Aécio Neves (MG), para tratar do assunto. O líder, ressalvando que não deseja alarmar ninguém (e, com isso, naturalmente, já alarmando), anunciou que o partido fechou com o pacote fiscal, sem qualquer ressalva. Mais: que a crise japonesa põe o governo novamente em estado de alerta e que não é hora de concessões.
Não há nenhum blefe no que o líder disse, claro. Ninguém duvida que a crise é grave e que impõe alerta geral. Mas a crise, como é óbvio, não começou ontem nem depende de declarações do PSDB para ser enfrentada. O partido quer marcar posição, firmar a imagem de principal sustentáculo político do governo, espaço até aqui ocupado pelo PFL, sempre mais presente e mais profissional nos momentos de crise. Há uma diferença, porém, entre os dois partidos: o PSDB é o governo Fernando Henrique, enquanto o PFL apenas está no governo.
O instinto de sobrevivência dos pefelistas, que sempre os faz abrir janelas para outras paisagens quando o sufoco se apresenta, leva-os a sublinhar as distinções (bem mais que filosóficas) entre o ser e o estar. O PFL cultua mais as circunstâncias do estar que as atribulações do ser. Daí sua monumental capacidade de sobrevivência, reciclagem e permanência no poder. Desde Thomé de Souza.





