Há não muito tempo, o professor Roberto Mangabeira Unger, ex-ideólogo do PDT e hoje mentor intelectual da candidatura presidencial de Ciro Gomes (PSB), mereceu elogios sinceros e inesperados do deputado Roberto Campos (PPB-RJ), seu antípoda ideológico.
Campos regozijou-se com algumas conclusões de recente reunião, em Santiago do Chile, das esquerdas latino-americanas, em que, entre outras revisões doutrinárias, pontificava a defesa, por parte de Unger, da privatização de empresas públicas.
Mais: os recursos dessas privatizações, segundo ainda Unger, deveriam ser destinados a abater a dívida interna e a reduzir os juros pagos pelo governo. Os ministros Pedro Malan e Antonio Kandir assinariam em baixo. O PT, no entanto, discorda.
Admite as privatizações (o que não deixa de ser surpreendente mudança de enfoque), mas quer que os recursos sejam aplicados na área social. Mangabeira explica que, reduzindo o déficit, sobra mais para tapar o rombo social (explicação que Roberto Campos, Malan e qualquer estagiário em economia, em princípio, endossariam).
As esquerdas latino-americanas estão em busca de soluções alternativas para seus impasses comuns. Desde o colapso do socialismo internacional, estão em estado de choque mental. Tornaram-se mais reativas que ativas. Pior: reagem com indignação, mas não dispõem de contraproposta e passam essa perplexidade ao público.
Daí porque, com a recente edição do pacote fiscal, ao desgaste da imagem do presidente Fernando Henrique não correspondeu o fortalecimento da imagem de nenhum político de esquerda. As lideranças de esquerda, a rigor, mostraram-se mais assustadas que o governo.
Em busca da luz no fim do túnel, as esquerdas latino-americanas têm reuniões periódicas entre seus principais partidos no continente. A idéia é boa e pode render frutos a médio prazo. A reunião de Santiago foi a anterior. A próxima será em Buenos Aires, semana que vem.
São reuniões que buscam mais reciclar informações e afinar pontos de vista. Sob esse aspecto específico, não têm sido exatamente bem sucedidas. As divergências são muitas - e as já citadas entre Mangabeira Unger e PT estão longe de esgotar o repertório.
Apesar de a conjuntura política interna brasileira recomendar a união das oposições, as principais lideranças de esquerda do País têm demonstrado, nesses fóruns externos, que o entendimento é remoto.
Entre os temas agendados para a próxima reunião, está o das reformas institucionais. Unger é defensor de um presidencialismo forte. Já elogiou o sistema brasileiro, que permite ‘‘viradas de mesa’’. Ele sugere a introdução, no presidencialismo brasileiro, de mecanismos que possibilitem ‘‘a resolução rápida de impasses programáticos’’.
Em busca de ‘‘resolução rápida de impasses programáticos’’, Getúlio Vargas rasgou a Constituição em 1937, e Costa e Silva, em 1968, para citar apenas dois exemplos mais expressivos.

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