Getúlio Vargas gabava-se de não possuir inimigo que não pudesse transformar em amigo - e vice-versa. Bastava que as circunstâncias políticas o aconselhassem. Não era uma bravata. Ao longo de sua vida pública, deu numerosas demonstrações desse, digamos, talento.
A mais expressiva foi a reconciliação com Luís Carlos Prestes, que saiu da cadeia (onde foi tão maltratado que seu advogado, Sobral Pinto, invocou a Lei de Proteção aos Animais para defendê-lo) diretamente para seu palanque continuísta, em 1945.
Vargas está longe de ter sido caso isolado. É, ao contrário, a chamada regra geral. Briga de político, ideológica ou pessoal, cicatriza rápido, sobretudo se, entre ambos, se interpuser como elo uma urna eleitoral. Foi em torno dela que Paulo Maluf e Antonio Carlos Magalhães superaram antigos ressentimentos.
ACM, por diversas vezes, chamou Maluf de ladrão e corrupto, recebendo em contrapartida diversos processos por injúria, calúnia e difamação. Bastou, porém, que se apresentasse um caminho comum de poder para que os adjetivos do passado fossem imediatamente esquecidos. Hoje, falam-se com frequência ao telefone e trocam sorrisos amabilíssimos quando se encontram para drinques relaxantes.
Como dizia Tancredo Neves, não se faz política com o fígado. A máxima está sendo mais uma vez confirmada. Ontem, encontraram-se para o início de profícuos entendimentos políticos dois ex-rivais, que já se xingaram de tudo, incluindo as respectivas genitoras.
São eles Orestes Quércia e Roberto Requião, ambos do PMDB. Houve um tempo em que Requião chamava Quércia publicamente de ladrão. Chegou a instalar um número na Embratel, um desses 0800, para registrar denúncias de corrupção contra o ex-governador paulista. Era o disk-Quércia, que chegou a fazer algum sucesso na mídia.
Quércia, em retribuição, espalhou para todo o país que o senador paranaense tinha um apelido significativo: Maria Louca. A troca de gentilezas registra numerosos outros afagos de idêntico calibre que, ao leitor leigo, talvez sugira algo de irreparável no espaço de uma mesma encarnação.
Emoção e política, porém (mais uma vez Tancredo Neves), não fazem um bom par. Quércia e Requião têm algo mais forte que seus ressentimentos recíprocos: a idéia fixa de impedir a reeleição de Fernando Henrique. Quércia comanda facção expressiva do PMDB paulista e exerce razoável liderança sobre algumas bancadas estaduais.
Já foi presidente do partido e soube exercer o poder de maneira objetiva. Mesmo com todo o desgaste, ainda é nome de peso. Requião luta contra a facção peemedebista pró-reeleição. Mais: é, ele próprio, candidato à sucessão de Fernando Henrique, com possibilidades de apoio do PT e PDT. Se o PMDB lançá-lo - e o desafio que o leva a Quércia é exatamente esse -, terá mais chances que Ciro Gomes de produzir a tão sonhada aliança de centro-esquerda.
Como se não bastasse, tem, como lembrou Delfim Neto, todos os defeitos necessários para vencer uma disputa presidencial.

mockup