Ruy Fabiano
O conflito entre a ala governista e a antigovernista dentro do PMDB aprofundou-se com o pacote econômico. A perspectiva de desgaste político da candidatura Fernando Henrique estimula os defensores da tese de que o partido deve apresentar candidatura própria.
Advertência do ex-presidente Itamar Franco de que a adesão à candidatura Fernando Henrique vai esgarçar o partido elevou a temperatura do debate. Há quatro dias, o Conselho Político do PMDB, órgão que não tem poder deliberativo, reuniu-se em Brasília e votou moção de apoio à reeleição do presidente da República.
Esse Conselho é dominado pela ala governista do partido, a que pertencem alguns de seus notáveis, como os governadores, os dois ministros de Estado - Íris Resende e Eliseu Padilha -, os líderes na Câmara e Senado e o presidente da Câmara, Michel Temer.
A rigor, não era nem preciso reunir o órgão. Bastava conferir sua composição para saber o resultado. De qualquer maneira, criou-se um fato político que agravou a luta interna. Paes de Andrade, presidente do partido e líder da ala antigovernista, convocou convenção nacional para janeiro. A convenção, sim, tem poder deliberativo.
A ala governista, contrária a essa convocação, diz que a convenção de janeiro não poderá deliberar sobre candidaturas, já que, para tanto, a data prevista em lei é junho do ano que vem. Paes diz que, se o Conselho Político, que é orgão meramente assessor, sentiu-se no direito de votar moção a favor da reeleição, muito mais pode a convenção nacional, que é órgão deliberativo máximo do partido.
Em meio a essa discussão, que parece não ter fim e que azedou de vez as relações entre as duas facções, Itamar Franco e José Sarney, dois potenciais presidenciáveis do partido, temem pelos estragos políticos. A moção do Conselho Político, na visão de ambos, pecou por um erro estratégico: antecipou esse debate, tornando-o irreversível.
Se, em vez de reunir o Conselho, a ala governista abrisse negociações com a ala oposicionista, seria possível ao menos estabelecer uma trégua de alguns meses dentro do partido. Nesse período, o quadro político-econômico do país, ora em ebulição, terá mais nitidez, o que permitirá que o partido decida com mais segurança o que quer.
Sarney e Itamar, que não descartam (nem confirmam) a hipótese de uma candidatura presidencial - tudo depende do rumo dos ventos e da crise -, acham que, mais que nunca, a pressa é a inimiga da perfeição. Por eles, o partido cozinharia o presidente da República em banho-maria até a convenção de junho.
O PMDB, como maior partido do país, sabe que é o único em condições de desequilibrar a disputa. Se pender para o lado de Fernando Henrique (e a crise não apresentar mais nenhuma surpresa), consolidam-se as chances da reeleição. Se,
porém, lançar candidato próprio, pode produzir a tal frente oposicionista e liquidar a fatura.
Esse o temor de Fernando Henrique; essa a certeza de Paes de Andrade; esse aparentemente o desejo íntimo de Itamar Franco e Sarney.





