Ruy Fabiano
Os analistas palacianos da crise recusam a visão fatalista segundo a qual a candidatura Fernando Henrique estaria a caminho da perdição. Entre esses personagens, cuja opinião o presidente acata, não se ignora o desgaste político que a crise tem ocasionado.
Mas há a expectativa de que fatores atenuantes predominem. O primeiro é o tempo que ainda falta para a campanha. O segundo é a percepção popular, que será obviamente alimentada pela publicidade oficial ao longo do tempo, de que a crise não é made in Brazil nem se resolve com varinhas de condão. O governo, segundo esse raciocínio, foi surpreendido não por ser incompetente, mas pela natureza imprevisível da crise, que surpreendeu todo o mundo - inclusive as potências.
Não apenas. A próxima eleição não será solteira, como aconteceu por exemplo ao tempo de Collor. Estarão sendo eleitos simultaneamente governadores, parlamentares e presidente da República. Isso desestimula aventuras individualistas e faz com que o discurso dissidente se torne bem pouco atraente. Ao político, diz uma velha máxima, pode-se pedir tudo, menos que se suicide eleitoralmente.
Ao tempo da eleição de Collor, todos os partidos lançaram seus candidatos, mesmo sabendo-os de antemão derrotados. Foi o caso do PFL, com Aureliano Chaves, e do PMDB, com Ulysses Guimarães. O máximo que poderia acontecer (e aconteceu) era o revés individual dos candidatos, sem reflexos na estrutura dos partidos.
Na eleição do ano que vem, a história é outra. Os partidos estarão jogando o seu destino político - e isso vale também para o PMDB, dividido entre candidato próprio ou apoiar a reeleição.
Os governadores candidatos à reeleição - quase todos da base política de Fernando Henrique - devem resistir ao máximo a iniciativas desafiadoras. Não é casual que eles comandem no PMDB a resistência ao projeto de candidatura própria, sustentado por Paes de Andrade.
O governo acredita que o impacto da crise, que quebrou expectativas e gerou temores, tende a se diluir. A insatisfação tende a ser metabolizada dentro de uma visão objetiva da realidade. O presidente repete sempre que os políticos, sobretudo os da oposição, subestimam a importância que a sociedade dá à luta pela estabilidade da moeda.
A queda de popularidade na sequência imediata do anúncio do pacote é vista com naturalidade, mas a expectativa é de que, com o desdobrar dos acontecimentos, o quadro reflua, e o presidente volte a readquirir a confiança do público.
Ou não, como diria Caetano Veloso.
CollorO ex-presidente Fernando Collor transmite, de Miami, suas impressões sobre o pacote fiscal:
FHC jogou o país num fim de ano sem alegrias e num 1998 de recessão e baixo astral. Esse é o preço que a sociedade, sobretudo a classe média, está sendo obrigada a pagar pela incúria do presidente, que não se empenhou na aprovação das reformas estruturais, tal como fez com a emenda da reeleição.
Deve-se esperar aumento substancial de desemprego, redução do crescimento e quebradeira generalizada.





