Ruy Fabiano
Passada a perplexidade inicial gerada pela crise financeira, os adversários eleitorais de Fernando Henrique - Lula, Ciro Gomes, Brizola, entre outros - vão afiando a retórica contra o pacote econômico. Imaginar que a crise seria cavalheirescamente posta de lado do cardápio eleitoral é mais que ingenuidade: é burrice mesmo.
O real, ativo político contra o qual a oposição nada podia, enfrenta sua primeira crise efetiva. Quem desperdiçará a oportunidade? O presidente Fernando Henrique vê-se diante de uma lei implacável, que associa seu destino político ao da moeda que ajudou a implantar.
Está, desde a edição do pacote, envolvido no tudo ou nada de uma crise cujo tamanho ainda desconhece. De certa forma, a contaminação eleitoral do processo é de responsabilidade do próprio presidente, que, ao empenhar-se pela reeleição na metade de seu mandato, precipitou o processo sucessório. Desde então, para o bem ou para o mal, tudo é sucessório.
As primeiras movimentações de prováveis adversários eleitorais de Fernando Henrique na sucessão já indicam essa tendência. Ciro Gomes, por exemplo, sustenta profecias apocalípticas, que antevêem a ruína da economia e o agravamento da crise social. Não hesita em acusar pessoalmente o presidente da república, que estaria adiando as providências necessárias para não enfrentar danos eleitorais.
Confrontando-se o que faz com o receituário estratégico de seu mentor intelectual, o professor Mangabeira Unger, que defende o aquecimento da temperatura política como meio de virar a mesa, percebe-se que ele está fazendo a lição de casa.
Lula tem sido bem mais cauteloso. Como gato escaldado em eleições mal-sucedidas, quer deixar claro que não joga na estratégia do quanto pior, melhor. Por isso mesmo, tem se recusado a pregar o caos. Ao contrário, tem dito que é preciso defender a estabilidade do real, como uma conquista da sociedade brasileira.
Não há, no entanto, nenhuma disposição de poupar criticamente o governo. Lula responsabiliza, como grande parte dos economistas neste momento, a visão monetarista do governo - sobretudo a ilusão das bandas cambiais -, pelo desastre econômico que se desenha.
O presidente da República definitivamente foi apeado de sua torre de marfim. Como um mortal comum, terá que daqui por diante enfrentar o desagradável pugilato dos palanques. Que já começou.
DelfimO deputado Delfim Neto (PPS-SP) admite, com ironia, que, pela primeira vez em sua vida, Brizola, do alto do seu Vulcabrás, acertou em cheio: a crise brasileira, neste momento, decorre mesmo das tais perdas internacionais, que o ex-governador há décadas aponta como vilã das danações nacionais.
Compara-o a um relógio quebrado, que pelo menos duas vezes por dia marca a hora certa. Não é exatamente um elogio.





