Há dias, em casa de um amigo, o deputado Luís Eduardo Magalhães (PFL-BA) discutia a crise e insistia quanto às reformas: ‘‘Precisamos aprová-las já, nem que seja fechando questão’’.
Fechar questão é expressão fora de moda. Significa tornar o voto do parlamentar compulsório em determinada votação, nos termos em que a direção do partido, com base no programa, determina. Quem votar de outra maneira perde o mandato.
Para tanto, porém, é preciso que haja fidelidade partidária. Não há. A redemocratização, em 1985, confundiu-a com o entulho da legislação autoritária e revogou-a. Sem fidelidade, o quadro partidário tornou-se uma ficção, um vasto balcão de negócios.
Programas, compromissos, doutrinas, tudo vira letra morta, conversa para boi dormir. Cada votação é uma epopéia, que exige negociação homem a homem - e não mais partido a partido. Cada parlamentar é seu próprio partido, um guichê autônomo. Quanto menos representativo, mais voraz e implacável, é a regra geral.
Não é esse, porém, o ponto. Importa analisar a ferocidade com que o PFL se atira às reformas, que, antes da crise, estavam sendo cozinhadas em banho-maria. Dizia-se que só seriam retomadas após as eleições, possivelmente por um Congresso-revisor, que operaria em condições favoráveis: quórum de maioria absoluta, em votação unicameral (Câmara e Senado juntos), de turno único.
Eis, porém, que a crise asiática vira a mesa e põe o governo em sobressalto. O PFL viu naquela circunstância a oportunidade de mais uma vez afirmar-se como o partido das crises. Em vez de lamúrias ou inquietações, assumiu a dianteira dos acontecimentos.
O presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães, veio a público informar que, a partir de agora, o Congresso trabalhará nos fins de semana e que, até o final do ano, as reformas estarão aprovadas. O presidente Fernando Henrique gostou, fez eco àquelas declarações e, mais que nunca, exaltou o profissionalismo dos pefelistas.
Dentro do PFL, a ordem está dada: tudo pelas reformas. Não há fechamento de questão, nem meios jurídicos para expulsar quem não apoiá-las, mas há outros meios, igualmente eficazes, de constranger os indecisos. Num partido de profissionais do poder, sabe-se a hora da ordem unida. Nesses momentos, ninguém discute o que vem de cima.
Diferente do PMDB e do próprio PSB, o PFL é um partido disciplinado, que sabe o que quer: a hegemonia do poder. Sua disputa com o PSDB movimenta a base parlamentar do governo desde o início. O PFL entrou pela porta dos fundos na aliança governista, mas, aos poucos, de crise em crise, ocupou espaços decisivos e impôs-se como aliado das horas difíceis.
Na atual crise, como nas anteriores, mostra-se bem mais desenvolto que seus parceiros de aliança. Está hoje mais próximo do presidente que o PSDB.

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