Ruy Fabiano
A sorte está lançada. O conjunto de medidas econômicas ontem anunciado terá seguramente um custo político, cuja dimensão nem governo, nem oposição sabem ainda avaliar. Certamente não será pequeno, já que as projeções são de que o pacote acentue a retração econômica e, com ela, desemprego, tensão social e desgaste político.
O governo não previa essa guinada brusca. Não se preparou para administrar uma campanha eleitoral em tais condições. O que se previa, antes da crise das bolsas, era exatamente o contrário: um gradual afrouxamento das amarras da economia, o que contribuiu para fortalecer a candidatura de Fernando Henrique à reeleição.
O quadro agora é outro. O presidente, até por falta de outra alternativa, decidiu lançar-se de peito aberto na luta contra a crise. Repete o refrão - ele e seus auxiliares - de que, acima dos interesses eleitorais, está a garantia do real. Mesmo sendo verdade - e ele, quanto a isso, não está blefando -, não deixa de ser um razoável bordão eleitoral.
A oposição (era previsível) recusou desde o início a proposta de união nacional. Não assumiu também a atitude de vaiar o governo. Mantém-se cautelosa na avaliação, menos por razões de sobriedade e mais por estar igualmente tonta com a velocidade dos acontecimento. A verdade é que, entre os políticos, poucos têm uma avalição razoável do que está acontecendo.
O próprio senador José Serra (PSDB-SP), ex-ministro do Planejamento e personagem com fácil trânsito junto à equipe econômica, repete que só quando a poeira baixar será possível saber exatamente a dimensão dos estragos e o que está por vir. Se ele, com toda a sua bagagem de especialista, não ousa diagnosticar as dimensões da crise, imagine-se o conjunto de seus colegas parlamentares.
A oposição não é um todo homogêneo, muito pelo contrário. Enquanto a esquerda, sobretudo PT e PDT, tende a intensificar as críticas à condução econômica, a porção de centro-esquerda - PMDB antigovernista e PPS de Ciro Gomes - insistirá numa candidatura única contra Fernando Henrique. Não há dúvida de que o presidente jamais esteve tão vulnerável.
O deputado Delfim Neto (PPB-SP) acha que o PMDB é o único partido capaz de desequilibrar a sucessão. Já o achava antes do terremoto asiático - e agora, muito mais. Se o partido, que é o maior do país, decidir lançar candidato, haverá forçosamente segundo turno. Se, no entanto, abdicar dessa prerrogativa e engajar-se na reeleição, é improvável que o projeto de Fernando Henrique seja ameaçado.
Com o pacote, porém, a tendência adesista perdeu espaço e a sedução por candidatura própria aumentou. Essa queda de braço político-eleitoral o presidente terá que administrar paralelamente aos embates da crise. Não há como dissociar, daqui por diante, as relações com o Congresso desse horizonte eleitoral, cada vez mais imprevisível.





