A crise das bolsas reduziu, em vez de ampliar, as chances de unidade oposicionista. A idéia inicial de que a candidatura Fernando Henrique sofreria abalos consideráveis, provocando aglutinação de seus adversários, não se confirmou. Nada indica que se confirmará.
A leitura que as diversas lideranças de oposição têm feito da crise e de seu papel dentro dela é das mais variadas - e conflitantes. Tornou-se mais nítida e acentuada a divergência entre os setores de esquerda e de centro-esquerda. Lula e PT condenaram o discurso solidário de Ciro Gomes e Itamar Franco.
A rigor, o discurso deles não foi exatamente solidário. No primeiro momento da crise, quando se temeu que pudesse ter proporções mais catastróficas, Ciro e Itamar chegaram a falar em união nacional para evitar um ataque de especuladores contra o real. Foi uma manifestação mais retórica que efetiva, na emoção do momento.
Outros personagens do PT, como o economista e ex-deputado Aloisio Mercadante e a deputada Maria da Conceição Tavares, sem mencionar a expressão união nacional, raciocinaram de maneira semelhante. Conceição chegou a dizer: ‘‘Não vamos ser urubus de esquerda. O país é que está em risco e vamos ver como podemos defendê-lo’’.
Foi, porém, o suficiente para que Lula e Brizola bombardeassem qualquer idéia conciliatória. A crise seria, ao contrário, oportunidade para tirar a máscara do real e enfraquecer a candidatura de Fernando Henrique. Nessa canoa, Itamar e Ciro já avisaram que não embarcam. Idem Paes de Andrade, presidente nacional do PMDB e líder da ala antigovernista do partido, que quer candidatura própria para enfrentar Fernando Henrique.
A tendência que se cristaliza é de pelo menos duas candidaturas oposicionistas - uma de centro-esquerda, outra de esquerda. Ciro Gomes é o nome provável da centro-esquerda e Lula o da esquerda. Não há ainda elo visível que os aproxime no primeiro turno.
Sinal claro de que Fernando Henrique saiu, no primeiro momento, fortalecido da crise é a adesão pública de Paulo Maluf à sua candidatura. Maluf manteve enquanto pôde sob suspense sua definição eleitoral. Não afirmava nem negava sua candidatura presidencial, embora continuasse trabalhando no plano regional pelo governo de São Paulo.
A reação de Fernando Henrique à crise, os espaços que passou a ocupar na mídia e, sobretudo, o desembaraço com que passou a tratar do tema precipitaram a definição de Maluf. Assim como ele, acredita-se que outros nomes que cultivam mistério em torno de seus projetos políticos pessoais, como Sarney e Itamar, estão mais próximos de uma definição. Ninguém crê que nenhum dos dois desafiará a liderança de Fernando Henrique - a menos, claro, que o imponderável sobrevenha.
A crise fez com que o presidente passasse a fazer mais o que faz melhor: falar. A pretexto dela, tem ocupado sistematicamente a mídia, onde, de passagem, arranja sempre um jeito de informar que é candidato, embora, claro, esteja disposto a sacrificar-se pelo país. Etc.etc.

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