A política nutre-se não apenas de fatos, mas, sobretudo, da capacidade que os políticos têm de manipulá-los, criando ou revertendo expectativas. O presidente Fernando Henrique é especialista na matéria - e desse talento alquímico advém grande parte de seu êxito político.
O presidente festejou a privatização da Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL) e transformou-a em mote central da entrevista coletiva que concedeu. ‘‘Esta é uma manhã gloriosa’’, exultou, em evidente (e premeditado) exagero retórico.
Seu objetivo - legítimo, aliás - é semear otimismo e reverter expectativas. Ele é o piloto da aeronave e, mesmo sabendo que o céu não é de brigadeiro e que não possui todos os instrumentos de controle, deve manter os passageiros calmos. Como ele mesmo disse, basta ‘‘surgir um solzinho e me apego a ele’’. Virtuosismo verbal e força de persuasão não lhe faltam. A privatização da empresa paulista, vendida com ágio de mais de 70%, quando a expectativa era de no máximo 50%, é sinal claro de confiança do mercado. Não é muita coisa, se se levar em conta que as turbulências não cessaram. Mas já é alguma coisa - e o presidente apega-se a ela e busca tirar o maior proveito político.
Diz que não hesita em tomar medidas impopulares e sacrificar suas chances de candidato à reeleição. Não se trata de sacrifício. O presidente não tem alternativa. O real é o seu único ativo político, para o bem ou para o mal. Ou o mantém à tona ou afunda com ele. Como não tem o controle do sistema financeiro internacional, resta-lhe (com todo o seu agnosticismo) invocar a Deus e semear o pensamento positivo, na tentativa de manter a população confiante. O esforço é louvável.
A tentativa de retomada das reformas insere-se no mesmo processo. Elas, se aprovadas - e há dificuldades consideráveis nesse sentido -, não trarão resultados imediatos. Mas, como disse o presidente, sinalizam positivamente para os investidores.
Da parte da oposição, os sinais são confusos e contraditórios. Parte dela se nega a dar qualquer apoio. Incluem-se aí Brizola, Lula e radicais do PT. Outra parte - Ciro Gomes, Itamar Franco, Roberto Freire - admite apoiar o governo na luta comum em defesa da economia.
Mas não há consenso quanto ao modo de materializar esse apoio. O governo já disse que o apoio que quer resume-se na aprovação das reformas. A maioria dos oposicionistas diverge. Os deputados Haroldo Lima (PC do B) e Neiva Moreira (PDT) acham que o governo deve parar imediatamente com as privatizações. O governo acha o contrário.
O ex-deputado Aloisio Mercadante, vice de Lula na chapa do PT nas eleições presidenciais de 1994, fez uma advertência solitária: ‘‘Não é hora de procurar dividendos eleitorais nessa grave situação’’. O deputado Haroldo Lima diz o oposto: ‘‘Os fatos sugerem o desgaste da candidatura de Fernando Henrique.
Agindo com firmeza poderemos concretizar uma aliança de centro-esquerda e ganhar a eleição’’.
Essa confusão favorece a ação estratégica do governo.

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