Único representante da Câmara dos Deputados na reunião anual do Banco Mundial e FMI, em Hong Kong, dias antes do colapso internacional das bolsas de valores, o deputado Paulo Lustosa (PMDB-CE) diz que a questão da volatilidade dos capitais - grande pânico dos governantes de todo o mundo - está longe de produzir qualquer consenso.
Há, quanto a isso, três posições distintas, sustentadas naquele encontro. A primeira, que mereceu a simpatia do FMI e dos neoliberais, diz que não deve haver qualquer interferência na livre movimentação dos fluxos financeiros. Deixa como está, para ver como é que fica. É uma visão cada vez mais questionada.
A segunda, oposta a essa, defende a criação de um órgão mundial regulador - equivalente financeiro à Organização Mundial do Comércio -, que defina regras internacionais que reduzam os efeitos corrosivos dos capitais voláteis.
A terceira posição, à qual se alinham Chile e Brasil, postula ação unilateral das autoridades econômicas de cada nação, mediante políticas específicas, para regular o tempo de permanência dos capitais.
Os aspectos positivos da globalização, como a tendência de uniformização da produtividade, redução de custos e maior rapidez na difusão tecnológica, diz Lustosa, têm como contrapartida a perda de autonomia das economias nacionais, nos campos fiscal, monetário e cambial. Pior: aumentam a exposição das economias a riscos sistêmicos.
Os abalos sofridos pela economia brasileira, em decorrência da crise asiática, configuram esses riscos, que, ampliados, correspondem ao preço a ser pago pelas economias que querem usufruir dos benefícios da globalização. Globalização, pois, equivale a perda de avaliação.
Há, segundo ele, outro ângulo, mais otimista, de avaliação desse quadro: a perda de autonomia é também garantia contra a adoção por parte dos governos de políticas inconsequentes, que induzam ao déficit público, ao aumento da relação dívida (interna e externa)/produto e dirigismo estatal.
Em síntese, ‘‘limitada produção de bobagens econômicas, preservando aqueles setores da população que sempre pagam a conta dos desmandos oficiais, na forma de inflação, de falta de oportunidades de emprego e de ausência de perspectivas positivas’’. Uma OMC financeira seria o braço institucional para reger a globalização do setor.
Quanto ao Brasil, o quadro macroeconômico geral é sustentável. O aumento da taxa de juros reafirma a defesa incondicional da estabilidade da moeda. ‘‘Pode-se discutir a magnitude da reação do Banco Central, mas não a direção do ajuste’’, diz Lustosa.
O País, como repetem empresários e lideranças de trabalhadores, não pode conviver por muito tempo com essas taxas de juros escorchantes, mas o único caminho para reduzir a pressão sobre a política monetária, adverte Lustosa, são as reformas constitucionais. E não apenas: ‘‘As reformas são hoje o passaporte para a sustentação de nossa credibilidade externa como um todo’’, conclui.

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