A adesão da Ordem dos Advogados do Brasil à tese do plebiscito não agrada ao governo. O presidente Fernando Henrique, se a hipótese vingar, estará em maus lençóis, pois terá que dedicar-se diuturnamente à causa. Um plebiscito é algo tão desgastante e delicado quanto uma eleição. Envolve gastos e providências estruturais equivalentes.
A organização do plebiscito, a julgar pelo anterior, há quatro anos, que decidiu sobre forma e sistema de governo, prevê horário gratuito eleitoral distribuído entre duas partes: de um lado, os adeptos da reeleição; de outro, os adversários. É a grande oportunidade sonhada pelos adversários do governo para se unirem e articularem.
Até aqui, o governo não soube o que é governar com oposição. A única oposição que conheceu é a de seus próprios aliados. Mesmo assim, oposição de cunho meramente fisiológico, reivindicativo. Basta atendê-la para silenciá-la - e, quanto a isso, o governo não se faz de rogado: atende mesmo. O plebiscito não preserva o governo do corpo a corpo no Congresso. A consulta ao povo não exclui a necessidade de se aprovar uma emenda constitucional estabelecendo o princípio da reeleição.
Traduzindo: o governo terá que suar a camisa nos palanques e no tapetão. Imagine-se Lula, Brizola, Itamar Franco e outros adversários governistas diariamente no vídeo e nas emissoras de rádio atacando a reeleição, como princípio e como conveniência, alinhando falhas e deficiências da atual administração, sua relação generosa com bancos falidos, sua limitação em encontrar saídas para o desemprego e coisas do gênero. O presidente, com certeza, não contava com essa hipótese quando cogitou de reeleger-se.
A adesão da OAB tem peso emblemático. A instituição é uma espécie de antena da sociedade civil organizada. Tradicionalmente, quando se envolve em causas cívicas - foi assim ao tempo de regime militar -, costuma atrair outros setores influentes da sociedade, como ABI, CNBB, artistas e intelectuais.
O presidente da OAB, Fernando Uchoa Lima, diz que a tese foi aprovada pelo Conselho Federal há dois meses. Está sendo concebida a estratégia para colocar nas ruas campanha pró-plebiscito. O plebiscito não fará necessariamente uma única pergunta ao eleitorado: se aprova ou não a reeleição. Pode fazer mais perguntas, do tipo: será válida para os atuais dirigentes? Ou ainda: será necessária ou não a desincompatibilização?
Tudo isso está sendo cuidadosamente preparado pelos adversários do governo, que já contabilizam ao menos uma vitória: até que tudo se resolva - e estão empenhados em que não haja pressa -, o governo Fernando Henrique estará literalmente paralisado. Em resumo, uma imensa jaca para o governo deglutir, com votos de feliz ano novo.

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