Ruy Fabiano
Em política, como em finanças, as mudanças nem sempre podem ser antevistas - e são exatamente essas, as imprevistas, que causam maiores estragos. Terremoto não dá aviso prévio. As camadas tectônicas no interior da terra subitamente se movem, em busca de acomodação.
Em política, essas camadas movem-se nos bastidores, longe de câmeras e refletores, e levam algum tempo para ser percebidas na superfície. Enquanto o país acompanha assustado os terremotos financeiros nas bolsas de valores, sem saber como e em que medida tudo isso o afetará (mas na certeza de que não está imune aos efeitos), o processo político desenrola-se, frenético, nos bastidores.
Intui-se, entre as oposições, que daqui até as eleições do ano que vem muitas mudanças ocorrerão e o país será outro. Ninguém sabe exatamente a dimensão das mudanças, mas há a percepção de que desfavorecem a ordem estabelecida. Não bastasse o exemplo argentino, com a derrota eleitoral do presidente Carlos Menem, há os exemplos anteriores de França, Inglaterra e México (este mais expressivo, pois derrubou a força política hegemônica há mais de 50 anos no país, o PRI).
O presidente do PT, José Dirceu, tem repetido que essa é a grande oportunidade de chegar ao poder e que será burrice não aproveitá-la. O nó do processo, no entanto, está exatamente à esquerda - mais precisamente no PT. A ala radical, que se expressa por meio do deputado Milton Temer (RJ), está repetindo em relação ao PDT de Brizola o mesmo comportamento sectário que levou a esquerda a perder, em 1992, a prefeitura do Rio.
Em 1989, Brizola havia apoiado, no segundo turno, a candidatura de Lula, sob o compromisso de que os dois partidos se uniriam no plano regional para as eleições municipais. Essa união regional se daria em torno do PDT, bem mais expressivo no Estado do Rio que o PT.
O PT nacional topou, mas o regional não. O resultado é que os dois partidos marcharam divididos naquelas eleições, e acabou dando César Maia (então no PMDB e hoje no PFL) na cabeça. Desta vez, a intransigência do PT fluminense é até mais acentuada. Brizola, afinal, se dispõe a apoiar o PT já no primeiro turno, abdicando do direito de disputar a presidência da República. Em troca, nada mais natural, quer que o PT o apóie regionalmente, fortalecendo a esquerda no Rio.
Temer acha bom o apoio de Brizola no plano nacional, mas não quer conversa no plano regional. Mais uma pedra no caminho da unidade oposicionista. José Dirceu está tendo enorme mão-de-obra para pacificar os ânimos. Para que a oposição se beneficie dos eventos da mudança, é preciso que, antes, esses ventos lhe soprem internamente.
Não é, por enquanto, o caso. Até prova em contrário, continua prevalecendo a velha máxima segundo a qual as esquerdas só se unem na cadeia. Enquanto isso, Fernando Henrique tem encontrado facilidade em contornar resistências à direita. O PPB, de Paulo Maluf, acerta os ponteiros para integrar-se à campanha pela reeleição (apesar das ameaças do terremoto Covas).





