Ruy Fabiano
O senador amazonense Jefferson Péres, do PMDB, entrou para o índex do Palácio de maneira meio inesperada - e emblemática. O senador, além de integrar a base parlamentar governista, tem um perfil discreto, que não se encaixa com o de alguém que busca notoriedade a qualquer preço. Não é definitivamente um radical.
Por tudo isso, foi escolhido pelo senador Ney Suassuna, da Comissão de Orçamento do Congresso, para relatar as contas do governo no ano passado. Jefferson fez o óbvio: relatou as contas, sem a preocupação de agradar ou de dourar a pílula. Confrontou-as com as do exercício anterior e fez as observações cabíveis, que os números impunham.
Constatou, por exemplo, que o governo reduziu seus investimentos em saúde e educação, inversamente ao que apregoa a publicidade oficial (cujos gastos, por sinal, aumentaram substantivamente). Constatou também que numerosas estatais gastaram além do que lhes estava autorizado, o que constitui crime de responsabilidade.
O senador cometeu a ingenuidade de colocar isso por escrito, causando enorme dor de cabeça para as lideranças governistas. O relatório não foi votado, o governo conseguiu ganhar tempo. Quer agora destacar do relatório as observações críticas e extirpá-las por meio de emendas supressivas. Como tem maioria, não é difícil fazê-lo. Difícil é impedir que o processo seja identificado pela opinião pública.
Jefferson subitamente passou a sentir em torno de si a adrenalina do Planalto. Sente-se, porém, tranquilo. Primeiro porque fez o que tinha que ser feito. Segundo porque não tem a intenção de fazer disso cavalo de batalha.
No seu estilo modesto de funcionário público, faz o que acha que deve ser feito, sem se preocupar com esquemas. Nem sempre, em política, isso dá certo. Ontem, por exemplo, Jefferson ouviu o porta-voz do Planalto, embaixador Sérgio Amaral, declarar num programa de televisão que é falsa a afirmação de que os gastos com publicidade do governo aumentaram.
Disse que se dispunha a esclarecer isso ao Congresso. Ato contínuo, Jefferson apresentou requerimento à Mesa do Senado, convocando-o. Um gesto oposicionista, acusam os governistas. Ele diz que não: um gesto de alguém que integra um Poder cuja missão é investigar os demais Poderes. E afinal de contas foi o próprio Sérgio Amaral quem se prontificou a ir depor (ainda que o tenha feito por mero efeito retórico).
Jefferson quer saber - e não apenas ele, com certeza - se os gastos efetivamente subiram na proporção anunciada, como estão sendo direcionados e de onde estão sendo tirados. O senador não faz insinuações, nem toma a defesa de ninguém - nem do ministro da Saúde, Carlos Albuquerque, cujas queixas por falta de verbas o tornaram alvo de reprimendas públicas por parte do presidente da República.
Quer apenas saber a lógica dos números, a mesma que lhe informa que o Brasil, embora com um PIB dez vezes menor que o dos EUA, gasta em publicidade estatal quase tanto quanto a Casa Branca.





