Ruy Fabiano
A reaproximação entre PT e o governador Miguel Arraes desserve os interesses da candidatura Ciro Gomes. O PT tem posto como premissa para desistir de uma candidatura própria - e em consequência integrar uma frente única oposicionista - a exclusão do nome de Ciro Gomes.
Arraes está cauteloso. Não diz que sim, nem que não. Primeiro porque, se concordar, não terá qualquer segurança de que o PT vai aderir mesmo. Segundo porque é ainda muito cedo para concordar ou discordar. As conversas, por enquanto, são apenas um ensaio do ensaio.
O presidente petista, José Dirceu, sabe que seu partido está longe de um consenso interno. Neste momento, é improvável (para dizer o mínimo) que as bases petistas concordem em abrir mão de candidatura própria para apoiar seja lá quem for. Dirceu admite a tese apenas para deflagrar o debate. Lula, aparentemente, desistiu de candidatar-se, mas isso também não é certo. Está apenas desencantado com alguns aliados, dentro e fora do PT, dos quais esperava alinhamento automático.
Política, porém, ensinava Tancredo - e Lula não ignora isso -, não se faz com o fígado. Não há espaço para desencantos. Respira-se pragmatismo. Lula, assim como Ciro Gomes, lançou-se com muita antecedência e expôs-se ao sol e ao sereno. Quer agora sair de cena, enquanto as preliminares do processo ainda se definem.
Por razões misteriosas, o governador Miguel Arraes tornou-se o eixo das articulações oposicionistas. O mistério está em que Arraes jamais se notabilizou por habilidades de negociador e preside um partido pequeno, o PSB, sem expressão nacional. Como se não bastasse, um mês antes de as negocições se iniciarem, estava no centro das denúncias de falcatruas da CPI dos precatórios, no Senado. Detalhes.
Ele tem adotado comportamento enigmático. Estimulou a candidatura de Ciro Gomes, buscou atrair Itamar Franco e o PMDB e agora quer ter o PT por perto. Não se sabe o que pensa do senador Roberto Requião (PMDB-PR), citado por José Dirceu como um nome palatável na hipótese de o PT abdicar de lançar candidato próprio.
Diz-se que Arraes sonha com o lançamento de um nome suprapartidário, de respeitabilidade nacional e de aceitação pelas esquerdas - o de Sepúlveda Pertence, ministro (e ex-presidente) do Supremo Tribunal Federal. É improvável que Sepúlveda, que não tem militância partidária e jamais disputou mandato eletivo, se disponha à empreitada.
A menos que houvesse um clamor público em torno de seu nome - e não há, neste momento, sinais disso -, é difícil imaginar que um ministro do STF, ocupante de cargo vitalício, abra mão da função para entrar numa disputa complexa, onde o consenso é uma vaga abstração.
A primeira reação ao nome de Sepúlveda partiu do próprio PT, mais precisamente do ex-prefeito Tarso Genro (provável substituto de Lula, a confirmar-se a desistência deste). Considera Sepúlveda conivente com a orgia de medidas provisórias patrocinada pelo governo Fernando Henrique. Uma pequena amostra do que aguarda o ministro, se entrar de fato na disputa.





