É improvável que a candidatura de Fernando Henrique venha a ser efetivamente desafiada por pelo menos dois dos nomes inevitavelmente incluídos nas especulações sucessórias: Paulo Maluf e José Sarney. Por razões semelhantes, que se resumem nas relações de custo-benefício, nenhum dos dois deve levar muito longe seu apetite crítico.
A audácia de ambos continuará submetida às leis do pragmatismo político. Suas relações com o governo continuarão lubrificadas com alguma adrenalina, mas não ao ponto de rebentar o cordão umbilical que os une ao Palácio do Planalto. É a chamada tensão administrada.
Sarney zela pelo futuro político de sua filha, a governadora Roseana Sarney, do Maranhão, candidata à reeleição. Roseana, como os demais governadores aliados, baseia seus planos reeletivos no bom tratamento (leia-se verbas) que recebe de Brasília. Um eventual rompimento entre seu pai e o presidente poderia comprometer esse relacionamento, que, até aqui, não construiu arestas e deve lhe render votos.
A situação de Maluf é equivalente. Programa-se para disputar o governo de São Paulo, já conseguiu com que Fernando Henrique mantivesse alguma distância da guerra eleitoral paulista (o que gerou a fúria e a renúncia provisória de Mário Covas à recandidatura) e negocia a inclusão do PPB na comissão da campanha para a reeleição presidencial.
Maluf é o favorito na disputa para o governo do Estado, segundo pesquisas diversas. E é esse favoritismo que estaria na base da renúncia de Covas, que não se conforma com dois gestos de Fernando Henrique: sua neutralidade no pleito paulista (negociada com Maluf) e a supressão de verbas (R$ 800 milhões) imposta pela Lei Kandir, com que pretendia deflagrar um surto de obras pelo estado.
Maluf e Sarney têm algo em comum. São vistos com restrições pelos personagens principais da base parlamentar governista. São tratados como aliados perigosos e frequentemente comportam-se como oposicionistas, mesmo não sendo. Ambos estimulam as suspeitas governistas.
A retórica de ambos é, em geral, crítica. Aplaudem o real, mas condenam a política de juros e o quadro recessivo dela decorrente. Nas horas decisivas, porém, fecham com o presidente. Nenhum dos dois negou apoio às causas fundamentais do governo, como as reformas constitucionais e a reeleição. Antes, porém, de definir-se, ambos infernizaram o quanto puderam com críticas e ameaças.
É o que acontece também em relação à sucessão. Sarney mantém em suspense a hipótese de sua candidatura presidencial. Não a nega, nem confirma. Mantém sempre o interlocutor em dúvida. Agora, por exemplo, diz que continua candidato, mas não disputa a convenção do PMDB.
Ou o partido se une em torno de seu nome ou disputará novo mandato de senador. Como o PMDB não se une em torno de nada - a não ser, claro, em torno de sua própria desunião -, o aviso equivale a uma renúncia. Maluf, mais sutil, prefere repetir que está consultando seus aliados, tarefa que só concluirá no próximo ano, nas vésperas da convocação do partido que definirá candidaturas.
Fernando Henrique não os teme: são de casa.

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