Certa vez, Lula fez um comentário irônico em relação a Paulo Maluf, que se proclamava o mais competente dos candidatos à presidência da República: ‘‘Deve ser porque compete, compete e não ganha nunca’’. Maluf já havia disputado duas eleições presidenciais (uma indireta e outra direta) e o governo de São Paulo, sem êxito. Absorveu a ironia com um sorriso amarelo.
Agora é Lula que vive a incômoda circunstância de seu rival. Já perdeu uma eleição para o governo de São Paulo e duas sucessões presidenciais seguidas, sendo que a anterior por goleada, ainda no primeiro turno. A rigor, porém, isto não significa muita coisa.
François Mitterrand perdeu também duas eleições presidenciais antes de chegar à presidência da França, onde reinou por dois mandatos consecutivos de seis anos. Cada eleição é (ou pode ser) uma história diferente. Depende do candidato. Lula, porém, está sendo questionado, dentro e fora do PT, pela mesmice de seu discurso, que sugere ao eleitorado a idéia de uma candidatura meramente de contestação.
Lula está insatisfeito com essas críticas, mas reconhece que seu nome não tem o poder de aglutinação necessário para derrotar Fernando Henrique. Até aqui, atraiu apenas o PDT de Brizola, adesão insuficiente para mobilizar o conjunto das oposições. O PDT não chega a ter existência comprovada, no plano da realidade política nacional.
O governador Miguel Arraes, presidente nacional do PSB, não quer Lula como candidato de consenso da oposição. Diz que não é nada de pessoal. Apenas Lula não atrai as forças de centro. Prefere, por isso mesmo, Ciro Gomes, embora não ao ponto de entusiasmar-se.
Arraes, a rigor, não é um ser entusiasmado. Exibe sempre expressão de imenso fastio, o que o torna um personagem enigmático. Como passou a ter peso na articulação sucessória oposicionista, ela se tornou ainda mais confusa do que se supunha. Mas essa é outra história.
Lula, que era aguardado ontem à noite no Brasil, vindo da Itália, mostra-se decepcionado com alguns companheiros da esquerda, dentro e fora do PT. Não absorveu a candidatura Ciro Gomes; acha que tinha precedência sobre ela e não foi tratado à altura.
Queixa-se de Arraes e do senador Roberto Freire (PPS-PE), dos quais esperava tratamento mais fraternal. Em entrevista a um jornal italiano, admitiu a impotência de sua candidatura, sugerindo que desistirá. Se essa desistência se confirmar, o PT volta a discutir o comportamento que terá na sucessão.
Se prevalecer a tese de candidatura própria - predominante no partido -, o nome do ex-prefeito de Porto Alegre, Tarso Genro, é o favorito. Se, porém prevalecer a tese de apoio a uma candidatura externa, quem passa a ser bem cotado é o senador peemedebista Roberto Requião (PR), cuja candidatura, até aqui, não é levada a sério nem dentro do próprio partido. PT e Requião andam juntos desde a CPI dos Precatórios, quando afinaram os discursos.
De quebra, como lembrou Delfim Neto, ‘‘ele tem quase todos os defeitos indispensáveis para eleger-se presidente’’.

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