Ruy Fabiano
O perfil político de Leonel Brizola não combina com o papel que se dispôs a cumprir de coadjuvante eleitoral de Lula. Mesmo em final de carreira, Brizola é cioso de sua liderança e carisma, e a idéia de estar secundando alguém contrasta até com seu jeito de respirar.
A parceria proposta a Lula, nesses termos, é apenas um modo de ganhar tempo, enquanto avalia melhor o rumo do quadro sucessório, que apenas se delineia. O escasso entusiasmo que a proposta de parceria produziu no comando do PT a torna ainda mais remota e improvável. Ambos sabem disso, embora se esforcem por demonstrar o contrário.
Não é casual que Brizola já esteja desconversando e admitindo conversar com Ciro Gomes, candidato pelo PPS. O PT reage e quer formalizar a parceria, não por crer nela, mas por senti-la um recurso circunstancial importante para evitar o isolamento entre as esquerdas.
Brizola e Lula sabem que estão fora de foco. Detêm ainda alguma liderança e influência, mas, como candidatos à presidência, já não empolgam nem a seus aliados. Qualquer dos dois, se candidato a deputado federal, conseguiria algo em torno de um milhão de votos e aglutinaria importante liderança na futura Câmara.
Como candidatos a presidente da República, no entanto, não emplacam. Além do esvaziamento das respectivas plataformas, há outros fatores: em Brizola, a idade; em Lula, o desgaste de sucessivas derrotas. A idéia de apoiar Ciro Gomes não os atrai porque sabem que acabariam desempenhando papel secundário no processo.
Ciro quer o apoio das esquerdas, mas não é um político de esquerda. Quer articular os partidos, mas não dá maior importância a eles. Acha, como Fernando Collor, que pode falar diretamente às massas e empolgá-las, sem intermediação de ninguém. Os partidos são importantes apenas na medida em que proporcionam acesso a uma fatia maior do tempo gratuito de propaganda no rádio e na televisão.
Brizola e Lula temem esse tipo de parceria, que os usaria apenas como chancela moral junto aos setores mais organizados da sociedade civil (zelo que Collor não teve). O PT cuida de isolar Lula de qualquer aproximação com Ciro. Já o PDT não exerce qualquer ascendência sobre Brizola. Ele faz o que bem quer.
No caso específico, não se sabe se para provocar o PT, tem dito que está disposto a conversar com Ciro Gomes. Convém lembrar que o guru de Ciro, o cientista político Roberto Mangabeira Unger, é autor do programa do PDT, ideólogo de algo que durante algum tempo Brizola chamou com entusiasmo de socialismo moreno. Há, pois, conexões razoáveis entre ambos.
As movimentações sucessórias são ainda embrionárias. Ninguém quer arriscar nada de sério com tanta antecedência. A aproximação entre Brizola e Lula é meramente circunstancial, uma espécie de abraço de afogados. Os dois sabem que eleitoralmente não acrescentam nada um ou outro. Ao contrário, ampliam os respectivos índices de rejeição (e perplexidade).





