O anúncio do deputado Paes e Andrede, presidente nacional do PMDB, de que pedirá aos ministros do partido que renunciem foi recebido com absoluto desdém pela cúpula governista. O pedido tem tanta eficácia quanto o dos governistas do partido a Paes para que desista da idéia de candidatura própria e apóie Fernando Henrique.
O desencontro de posições e objetivos evidencia que o PMDB há muito deixou de ser um partido, mesmo considerando os precários padrões nacionais. Sobrevive, na verdade, apenas em função de projetos eleitorais de alguns caciques nos estados. Desde a morte de Ulysses Guimarães, não há um traço de união no partido.
O PMDB, como é óbvio, não é a única legenda a abrigar facções distintas. Essa, na verdade, é uma característica geral do quadro partidário brasileiro, que não exige fidelidade de ninguém. Até o PT, habitualmente apontado como o mais homogêneo, é uma colcha de retalhos ideológica. Só que, em alguma medida, há elos entre essas faccões, que permitem que o partido se apresente unido nos momentos mais decisivos.
O PFL, por exemplo, une-se em torno do poder. Divergências pessoais ou de grupos cedem sempre ao interesse maior de estar no poder. O partido absorve atritos entre suas seções regionais - a baiana e a pernambucana, por exemplo - sem que as contrariedades sequer vazem para a opinião pública. Há uma voz de comando que, quando é preciso, dá a ordem unida - e todos obedecem.
No PT, idem. Basta ver que, após uma convenção acalorada, em que o partido reelegeu José Dirceu presidente por estreita margem, cessaram as polêmicas públicas. Prevalece, por enquanto, a candidatura Lula, e o partido, em seu conjunto, não cogita de aderir a nenhuma candidatura externa, ainda que em nome da unidade oposicionista. Há, pois, apesar de todos os pesares, espaços decisivos de unidade.
São as chamadas questões vitais. O PMDB chegou a tal estado de desagregação que já não reconhece essas questões. Uma parcela do partido está no poder, outra na oposição. Outra ainda entre uma coisa e outra - isto é, em cima do muro, disposta a saltar do lado que lhe parecer mais adequado no momento em que já não couber dissimulação.
O governo sente que, nessas condições, não vale a pena investir nessa parceria. Os demais parceiros de sua base, PSDB e PFL sobretudo, pressionam para que o partido seja defenestrado. Apesar disso, o presidente Fernando Henrique não deve demitir os ministros peemedebistas - Iris Resende, da Justiça, e Eliseu Padilha, dos Transportes.
Eles não estão no governo por indicação do partido. Foram nomeados pelos votos que conseguem agregar no Congresso. Demiti-los equivaleria a fortalecer a porção oposicionista do partido, empurrando-os para os braços de Paes de Andrade.
O que o governo quer, muito pelo contrário, é continuar investindo na desagregação do partido. E a melhor maneira de fazê-lo é continuar estimulando o choque entre suas facções.

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