Os articuladores da candidatura Ciro Gomes trabalham com a certeza de que a unidade oposicionista só acontecerá no segundo turno da eleição presidencial. De início, projetam eles, haverá pelo menos três candidatos de peso: Fernando Henrique, Lula e Ciro Gomes.
A indefinição do PMDB, que não sabe se apóia Fernando Henrique ou se lança candidato próprio, não muda muito essa projeção. A expectativa é de que, se optar por não apoiar Fernando Henrique, o PMDB venha a se integrar à frente de centro-esquerda, com Ciro Gomes.
É pelo menos esse o empenho pessoal do presidente do PMDB, deputado Paes de Andrade, que sonha com a dobradinha Ciro Gomes-Itamar Franco (não necessariamente nessa ordem). Itamar, porém, não transmite a menor segurança a nenhum dos interlocutores.
Não os quer perder de vista, mas também não assume compromissos. Não sabe, por enquanto, o que quer - se ser candidato a presidente da República ou a governador de Minas. Não tem também pressa em definir-se. Crê que o tempo conspira a seu favor.
Ciro, cuja candidatura chegou a ser apelidada de bala perdida, pois não parecia ter alvo certo, já definiu o seu discurso. Irá situar-se entre as duas alternativas já conhecidas: Fernando Henrique e Lula. Do primeiro, criticará o que classifica de ‘‘mistificação do real’’; do outro, a radicalização corporativista.
Seu alvo preferencial, no entanto, será mesmo Fernando Henrique, com quem pretende estabelecer os confrontos mais pesados. Lula será poupado, até porque será o aliado inevitável no segundo turno.
A orientação do guru de Ciro, o cientista político Mangabeira Unger, é de explorar o desgaste da imagem de Fernando Henrique, repetindo o que Fernando Collor fez (com inegável sucesso) em relação a José Sarney, em 1989. Haverá dois discursos: um, articulado, embasado em números e informações consistentes, para debates junto a um público mais exigente e formador de opinião; outro, passional, visando a explorar a insatisfação e frustração das massas com o governo.
Ciro está otimista quanto ao poder de aglutinação de sua candidatura. Acha que, à exceção do PT e PDT, acabará atraindo os demais partidos de oposição, incluindo dissidentes do PMDB e PSDB. Acabariam aderindo por falta de outra opção. O comportamento, ainda indefinido, do governador Miguel Arraes não o incomoda.
Arraes, responsável pelo lançamento da candidatura de Ciro, passou a certa altura a cozinhá-lo em banho-maria. Ciro aptou pelo PPS, mas crê na parceria entre os dois partidos. Arraes vem exercendo o papel de articulador das esquerdas, mas sabe que não há nenhuma chance de PT e PDT marcharem com Ciro. O que, na verdade, Arraes ainda não sabe não é para onde vão Lula e Brizola, mas, sim, para onde vai ele próprio, Arraes. Ciro acredita que ganha essa parada.

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