O comportamento ambíguo da Argentina diante do choque de interesses entre Brasil e Estados Unidos no Mercosul é um dos nós diplomáticos que a visita de Bill Clinton ressalta (e não resolve).
A Argentina beneficia-se hoje de uma relação comercial das mais vantajosas com o Brasil. Não há exagero em afirmar que o saldo comercial que obtém hoje com o Brasil (US$ 1,2 bilhão - US$ 200 milhões a mais que o obtido com os EUA) está financiando o seu déficit.
Esse favoritismo tem custado ao Brasil não apenas perdas comerciais, mas também atritos diplomáticos. A União Européia, por exemplo, ameaça denunciar o Brasil à Organização Mundial do Comércio pelos privilégios concedidos a seus parceiros do Mercosul.
O Brasil está prestes a abrir ao Mercosul - e a Argentina é sempre o beneficiário maior, dada a sua superioridade diante de Paraguai e Uruguai - o setor de serviços e compras governamentais, em igualdade de condições com as empresas nacionais. A recíproca não é verdadeira. Não é casual que, enquanto a indústria brasileira sofre retração e reduz empregos, a produção industrial argentina tenha crescido em setembro nada menos que 11% em relação ao mesmo período do ano passado. O Brasil exporta empregos para a Argentina - e, por extensão, importa desemprego. Tudo em nome do Mercosul.
Como é óbvio, a Argentina não quer (nem pode) alterar suas relações com o Brasil. Mas sente-se desconfortável com o nível de dependência estabelecido. Por essa razão, não retribui em cortesia ou boa vontade os frutos da parceria. Ao contrário, sempre que pode faz jogo duro. Basta lembrar o episódio em que negou apoio ao Brasil para que obtivesse assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.
É também dentro desse estado de espírito, de quem repele o benfeitor mas não abre mão do benefício recebido, que a Argentina exulta com a estratégia norte-americana de cortejá-la para semear desconfiança junto aos parceiros do Mercosul - em especial, o Brasil.
Os argentinos procuram tirar o máximo proveito da circunstância. Já são parceiros militares ‘‘íntimos’’ dos americanos, não obstante a história recente entre os dois países não respaldar essa intimidade. Nem a Argentina (ao contrário do Brasil) se aliou aos americanos na Segunda Guerra Mundial, nem os americanos (ao contrário do Brasil) a apoiaram na Guerra das Malvinas. Em diplomacia, porém, recordar não é viver.
Para a Argentina, quanto mais tempo durar o impasse entre Brasil e Estados Unidos, melhor. Ela é a beneficiária do conflito, na medida em que ambos procuram atraí-la e se dispõem a gastar com isso. Como uma musa indecisa, busca tirar o máximo proveito da disputa.
Como a disputa é absolutamente desigual, já que os trunfos norte-americanos são incomparáveis, o Brasil vive momentos difíceis, em que teme que todo o esforço até aqui investido no Mercosul acabe comprometido pela voracidade de sua principal parceira.

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