Ruy Fabiano
O senador José Sarney lembrou, há dias, que as divergências entre Brasil e Estados Unidos, nos últimos anos, mudaram de qualidade. Até a década passada, davam-se em torno de questões pontuais - informática, aço, têxteis, sucos, sapatos. Hoje, dão-se em torno de questões globais - Alca, Mercosul, Nafta.
Mudou o patamar, mudou também o tom (e a profundidade) das retaliações. Não é um mero detalhe. A essência dos conflitos presentes entre os dois países tem pouco ou nada a ver com a truculência e os exageros dos seguranças de Bill Clinton ou com ânimos patrióticos exaltados dos brasileiros por indelicadezas diplomáticas.
O que está em pauta é algo bem mais complexo e delicado: o estabelecimento de uma nova política para o hemisfério. O Brasil não quer uma integração veloz, que leve em conta apenas aspectos comerciais, como querem os EUA. Entende a diplomacia brasileira - e Fernando Henrique o disse recentemente no Chile e o repetirá a Bill Clinton - que a integração hemisférica tem que ser mais ampla.
Nas palavras de Fernando Henrique, é preciso globalizar não apenas mercados, mas padrões de vida. A tradução é simples: sem que haja um mínimo de equilíbrio sócio-político-econômico entre os países, a integração será mera anexação de mercados, o que tornará os países pobres mais pobres, e os ricos, mais ricos.
Como a redução desses desequilíbrios não se obtém em um passe de mágica, é preciso estabelecer um processo de gradual integração, antes de implantar a Área de Livre Comércio das Américas (Alca).
O Brasil vê o Mercosul como a interface ideal para essa integração. Unidas, as economias do Hemisfério Sul supririam algumas das colossais disparidades em relação às do Norte, reduzindo o impacto do processo de integração. Aí as divergências chegam a seu ponto mais delicado. Os EUA não querem essa interface.
Querem integração direta e imediata, sem intermediações ou lideranças. O papel de catalisador da união ao Sul, desempenhado pelo Brasil, incomoda o gigante ao Norte. Embora, no curto prazo, nada disso sequer arranhe os números da poderosa economia americana, os estrategistas de lá não acham conveniente que se permita o surgimento de uma liderança política no que genericamente costumam chamar de seu quintal - isto é, a América do Sul.
Os esforços norte-americanos, neste momento, estão voltados para a desagregação do Mercosul. A visita de Clinton, que terá sua parte mais glamourosa prevista para Buenos Aires, tem esse objetivo essencial. A Argentina é a chave da desintegração.
Daqui até a reunião de chefes de Estado, ano que vem, no Chile, há tempo para muita coisa. O estímulo a uma corrida armamentista no Cone Sul, a elevação da Argentina à condição de parceira militar junto à Otan, o empenho para levar o Chile ao Nafta são alguns dos lances dessa queda de braço entre Golias e Davi. As expectativas brasileiras não são propriamente de vitória, mas de evitar perdas totais. A luta imediata é para ganhar tempo.





