O PMDB está em luta consigo próprio diante da sucessão presidencial. É uma luta inglória e esquizofrênica, na medida em que não há perspectiva de vitória para nenhuma das partes envolvidas. Há basicamente duas facções em luta: a dos governistas e a dos oposicionistas.
O PMDB governista, que possui dois ministros - Íris Resende, da Justiça, e Eliseu Padilha, dos Transportes - e o presidente da Câmara, Michel Temer, além de alguns governadores, está sendo pressionado por Fernando Henrique para que se pronuncie de modo categórico a favor de sua candidatura à reeleição.
O presidente sente-se no direito de fazer a cobrança. Afinal, o partido integra sua base política e ocupa cargos estratégicos nos primeiro e segundo escalões. Apesar disso, pelo silêncio de sua porção governista, acaba dando a impressão de que é um partido oposicionista.
O que o presidente quer, na medida em que não pode silenciar a dissidência, é instar a porção aliada a ocupar espaços e fazer prevalecer a força da máquina. O comando do partido está em mãos adversárias. Seu presidente nacional, Paes de Andrade, comanda o coro dos descontentes e estimula os pré-candidatos do partido a fermentar o debate sucessório à presidência da República, mas a máquina federal oferece considerável apoio aos governistas.
Há, neste momento, nada menos que três pré-candidatos: os senadores José Sarney (AP) e Roberto Requião (PR) e o ex-presidente Itamar Franco. Sarney já saiu a campo há muito tempo. Requião ainda não colocou as mangas de fora, mas não demorará a fazê-lo. E Itamar, muito pelo contrário, vai cozinhar sua indefinição por muito tempo.
Fernando Henrique cobra mais adrenalina da parte do PMDB governista. Será atendido, mas não conseguirá esvaziar a dissidência. Ela cresce em importância na medida em que avançam as negociações por uma candidatura de centro-esquerda que produza uma coligação forte de partidos de oposição. Se o ideal de candidatura única parece distante, já que o PT não abre mão de lançar candidato próprio e o seu candidato não produz essa convergência, nem por isso a meta de coligação oposicionista contra Fernando Henrique está afastada.
Ciro Gomes, por exemplo, joga nessa direção. Miguel Arraes também, embora já não demonstre o mesmo entusiasmo (se é que chegou a demonstrá-lo de fato em algum momento) pela candidatura de Ciro. Paes de Andrade empenha-se em viabilizar uma aliança Itamar-Ciro Gomes.
O que o inibe, neste momento, é a candidatura Sarney, ainda não formalizada, mas posta em discussão dentro do partido há alguns meses por Orestes Quércia. Paes não a vê com o mesmo potencial ecumênico da candidatura Itamar, muito embora tenha sobre ela indiscutível vantagem: Sarney, se o partido o apoiar, não hesitará em enfrentar Fernando Henrique. Itamar, mesmo com esse apoio, tem dúvidas.
Com tamanhas hesitações do lado oposicionistas, Fernando Henrique acha (e tem razão) que é hora de os governistas ocuparem espaços.

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