Ruy Fabiano
O embaixador dos Estados Unidos, Melvyn Levitsky, está certo em considerar naturais as observações do relatório de seu governo a respeito do Brasil, nele apontado como um país corrupto. Não era um relatório, diz ele, apenas um guia para empresários.
Não viola, pois, as regras diplomáticas. Claro, claro. Aplicando-se os conceitos e critérios ali utilizados aos Estados Unidos, o Itamaraty poderia chegar a resultados igualmente interessantes. Imagine-se um investidor que, por hipótese absurda, desconhecesse os Estados Unidos. O que diria um guia semelhante do presidente Bill Clinton?
Político talentoso, cumpre seu segundo mandato presidencial, sob acusações da mídia local de corrupção eleitoral. Presidente e primeira-dama estão também sob acusação de fraude, num empreendimento imobiliário de uma década atrás, conhecido por Whitewater.
Detalhes irrelevantes, claro, tanto que o presidente reelegeu-se em meio às acusações, que incluem um processo por assédio sexual contra ex-funcionária. O assunto é delicado, mas, como se trata de guia para investidores, sem fins diplomáticos, não deve ser omitido.
Em matéria de política externa, o guia pode mencionar a inclinação histórica daquele interessante país (campeão mundial na defesa retórica de direitos humanos) para envolver-se e interferir no destino de outros povos. O Chile dos anos 70, por exemplo. Ou então Coréia, Vietnam, Cuba, Iraque, Granada, Panamá, Haiti. A lista é interminável.
Em nome dos interesses externos, vale tudo. O Panamá, por exemplo. O guia pode recordar: às vésperas de findar contrato de uso do canal pelos Estados Unidos, providenciou-se uma crise de Estado naquele país. Primeiro, a CIA colocou no poder um traficante de drogas, o general Noriega. Depois, cuidou de revelar ao mundo sua ocupação profissional e, em seguida, o depôs, dando ensejo à ocupação militar do país. Manteve-se o controle sobre o canal por tempo indeterminado, sem necessidade de maiores contratempos.
O nome disso? Realpolitik, que, convenhamos, soa bem melhor que corrupção. O investidor, ainda nessa questão, pode encontrar no hipotético guia outro registro interessante: a propensão norte-americana para legislar em terras alheias.
Imagine-se se o Congresso brasileiro decidisse votar uma lei que proibisse, por exemplo, que os holandeses vendessem tamancos aos ingleses. Ou que os suíços deixassem de comer chocolate.
Diriam que o país endoidou de vez ou resolveu, ele próprio, tornar-se personagem de histórias de realismo mágico. Pois o Congresso americano levou isso à prática. Aprovou a Lei Helms-Burton, que legisla para fora do território americano, proibindo que os países negociem com Cuba, sob pena de retaliação comercial. Com isso, fere princípio basilar do Direito Internacional. Detalhes, claro.
O guia do Itamaraty poderia ir mais longe, sem risco de provocar conflito diplomático. Basta que, como esclareceu o embaixador Levitsky, se atenha a fontes locais, tendo em vista a nobre missão de orientar investidores. Tudo, claro, muito ético e natural.





