A estratégia de impacto da candidatura Ciro Gomes padece de uma fragilidade: a dificuldade de mantê-la por longo tempo em alta temperatura, como quer o seu mentor intelectual, o professor Roberto Mangabeira Unger. A um ano das eleições, Ciro aparentemente já criou o impacto que tinha que criar e já evidenciou seus trunfos eleitorais.
Esses trunfos derivam de sua condição de dissidente da política oficial, ex-ministro do real cujas críticas dirigem-se não à essência do programa governamental, mas à suposta infidelidade do presidente e seus próprios compromissos.
Não há dúvida de que é uma estratégia de impacto. Como, porém, mantê-la em evidência ou fazê-la ganhar mais combustão daqui até as eleições? Eis o desafio. Fernando Collor, que se valeu de concepção semelhante, encontrou maior facilidade. Centrou sua retórica em acusações de improbidade administrativa, fixando-se na figura do presidente da República, José Sarney.
O presidente passou a ser tratado como corrupto, cuja prisão seria providenciada na sequência imediata da posse. Um discurso obviamente inócuo, na medida em que não cabe ao presidente da República providenciar a prisão de ninguém.
Mas não há dúvida de que produziu grande efeito cênico, sobretudo num país como o Brasil de 1989, mergulhado em hiperinflação e recessão, ainda desabituado de conviver com sucessivas denúncias de corrupção na administração pública. As denúncias hoje continuam, mas, convenhamos, já não causam maiores impactos. É improvável, pois, que Ciro Gomes adote tal procedimento em relação a Fernando Henrique.
Primeiro porque o perfil do presidente não combina muito com esse figurino. Depois porque a expectativa do debate é outra. O público quer conhecer alternativas concretas e não dá mostras de se satisfazer apenas com agressões adjetivas.
Por isso mesmo, o figurino de vilão que Ciro Gomes prepara para o presidente não envolve questões de probidade. Ciro já disse que ele é um homem de bem. Quer mostrá-lo, porém, como político medroso, submisso a interesses reacionários, traidor de compromissos de campanha.
Para o êxito dessa estratégia, é fundamental que o presidente se disponha a polemizar com ele. Até aqui, isso não aconteceu. As referências de Fernando Henrique a Ciro Gomes foram as mais discretas e econômicas possíveis. Isso só mudará se a candidatura Ciro Gomes deslanchar e despertar efetivo interesse na opinião pública.
É aí que profissionais de marketing avaliam que o ex-ministro saiu em campo cedo demais - e cedo demais expôs todos os seus trunfos. É improvável que haja cartas ocultas na manga. O que tinha a mostrar já foi mostrado. Daqui para a frente, terá que repetir seus bordões e bordoadas, cuidando para que não cansem prematuramente o público. A tendência, neste momento, é tirar o time de campo e concentrar-se numa batalha de bastidores, igualmente complicada e de chances ainda mais remotas: a candidatura única da oposição.

mockup