Ruy Fabiano
Ao tempo do regime militar, cobrava-se da oposição parlamentar, então reunida no MDB, mais que críticas, um programa alternativo de governo. Dizia-se que não bastava criticar; isso qualquer um fazia.
Era preciso, para que as críticas tivessem consistência e credibilidade, que mostrassem (e demonstrassem) a ação mais adequada que deveria ser adotada para que as coisas funcionassem melhor.
Esse desafio incomodava profundamente a oposição. E o motivo era simples: a unidade entre suas diversas correntes centrava-se apenas na divergência. Não havia unidade doutrinária. A oposição, dizia-se, era um saco de gatos. Nela, havia desde liberais e anarquistas até comunistas revolucionários e social-democratas.
Como conceber um programa alternativo de governo que unisse coisas tão diferentes? Quanto mais genéricas as proposições, mais fácil manter a unidade. Quanto mais se quisesse detalhar ações e idéias, sobretudo na área econômica, mais riscos de cisão.
Como se vivia sob um regime de exceção, não era difícil contornar temas incômodos. Questões elementares, afinal, reclamavam providência: liberdade de imprensa e de organização partidária, eleições diretas, fim da censura, anistia etc.
Havia amplo espaço para contornar questões ideológicas e doutrinárias, cuja discussão abriria frentes de coflito. Conquistadas, porém, aquelas bandeiras institucionais, a partir do governo Geisel até o início do governo Sarney, a frente oposicionista fragmentou-se paulatinamente. Surgiram numerosos partidos - uns de verdade, outros de aluguel -, e aliados da véspera tornaram-se adversários radicais.
O prêambulo vem a propósito da frente partidária de oposição que se busca articular, neste momento, contra Fernando Henrique, tendo em vista a sucessão presidencial do ano que vem. O desafio posto a esses partidos é o mesmo que o regime militar punha ao velho MDB: formulem um programa alternativo de governo. Não basta amaldiçoar a crise; é preciso apontar soluções efetivas.
As primeiras tentativas mostram a imensa dificuldade que isso representa. Dentro do próprio PT, o maior dos partidos de oposição, não há unidade programática. A reeleição de José Dirceu para a presidência do partido, há dois meses, provocou um racha. A candidatura de Ciro Gomes, que deixou o PSDB e entrou no PPS (ex-Partido Comunista), não está sendo assimilada pelos demais partidos de esquerda.
Sua proposta é formar uma frente de centro-esquerda contra Fernando Henrique. Ciro quer aprofundar as reformas de FHC, abominadas pela esquerda. Tem-se aí um nó ideológico impossível de desatar.
Não obstante, PT, PDT, PC do B e PSB decidiram formar grupo de trabalho para elaborar programa alternativo de governo, a ser divulgado semana que vem. O dilema é o mesmo do velho MDB: se o programa não for genérico e superficial, terá poucas chances de manter a unidade e agregar apoios ao centro; se descer ao cerne dos problemas econômicos e sociais, não manterá a unidade sequer à esquerda.





