Ruy Fabiano
Devidamente preservados da curiosidade popular pela esfuziante passagem do papa João Paulo II, José Sarney e Itamar Franco rezaram sua missa particular sábado passado, no Hotel Glória, Rio. O encontro, a rigor, foi uma espécie de variação em torno do nada.
Nem Sarney, nem Itamar admitem ser candidatos a presidente da República. No entanto, foi essa hipótese que os reuniu. Ao final, a declaração conjunta resumiu-se numa frase: Estamos unidos em 1998. Unidos em quê ou para quê? Bem, essa é outra história, que nenhum dos dois se interessa em aprofundar agora.
Possivelmente, nem depois.
Sarney diz que, se o PMDB decidir lançar Itamar candidato, terá seu apoio. Itamar é ainda mais vago. Diz que ainda há muito o que conservar até as eleições do ano que vem. A frase mais ousada que se arrisca a proferir é a seguinte: As decisões sobre candidaturas serão tomadas no tempo certo. Todos, claro, imaginavam o contrário.
A indefinição de ambos não se deve apenas ao estilo dissimulado com que fazem política. Deriva, sobretudo, da indefinição do PMDB. O partido, como se sabe, está dividido em diversas facções, inamistosas entre si e com objetivos diferenciados.
O PMDB de Michel Temer, presidente da Câmara, e do ministro da Justiça, Iris Resende, apóia a reeleição de Fernando Henrique Cardoso. Condenam, pois, candidatura própria. O de Paes de Andrade e Quércia, ao contrário, quer partido na oposição. Há ainda o PMDB gaúcho, que já foi pró-Fernando Henrique e hoje faz mistério sobre o futuro.
Paes de Andrade quer o PMDB com candidato próprio - e essa é sua única definição. Não sabe se vai de Sarney ou de Itamar. A princípio, estimulado por Orestes Quércia, entusiasmou-se com Sarney. Agora, incentivado pelo governador Miguel Arraes, do PSB, inclina-se por Itamar, por sabê-lo mais propício a promover a convergência de partidos de esquerda.
Sarney lida com apenas duas alternativas: ou será candidato a novo mandato de senador pelo Amapá (hipótese mais provável e sem risco) ou, se essa for a opção do PMDB, disputará a presidência. Mesmo assim, só o fará com um mínimo de garantias, que se resumem no aprofundamento do desgaste de Fernando Henrique. A hipótese, claro, existe, mas é vaga. Já Itamar tem várias alternativas.
Pode ser candidato pelo PMDB, pode fazer dobradinha com Ciro Gomes, pode ser candidato a governador de Minas com apoio de Fernando Henrique ou com o apoio da oposição. Dentro de uma visão puramente utilitária do processo, que costuma ser a preferida dos políticos mineiros tradicionais, as probabilidades maiores são de que opte pela candidatura ao governo estadual com o apoio de Fernando Henrique.
Nessa hipótese, passa a evitar contatos com opositores, declarações críticas e interna-se nos assuntos da política mineira. Essa definição, claro, não virá agora. Só lá por março do ano que vem. Até lá, Itamar prefere vagar mudo pelos bastidores da sucessão.
Nesses termos, pode-se considerar até um excesso ter dito que as decisões sobre candidaturas serão tomadas no tempo certo. Com o horário de verão, nunca se sabe.





