A batalha parlamentar da reeleição, cada vez mais problemática e mergulhada nos subterrâneos do fisiologismo, é uma pequena amostra das contradições e conflitos da aliança política que sustenta o governo Fernando Henrique. O presidente é o maestro de uma orquestra que não se cumprimenta e toca por partituras diferentes.
Não há entre os cinco partidos que sustentam o governo - PSDB, PMDB, PFL, PTB e PPB - maiores afinidades doutrinárias ou filosóficas, senão aquela elementar de estar no poder e de usufruí-lo da maneira mais esperta e vantajosa possível.
Esse apetite ecumênico os torna, em vez de aliados, competidores entre si. Não há diálogo entre as lideranças. O presidente, para tê-las a seu serviço, precisa estar em permanente contato com os líderes, administrando suas demandas e insatisfações. Ele é o vértice de uma triangulação neurótica, como um pai obrigado a vigiar seus filhos menores para evitar que briguem entre si e causem estragos à casa.
A reeleição aguçou os apetites. A oposição, minoritária e desarticulada, assiste a tudo mais ou menos com passividade. O quiproquó acontece dentro das forças governistas. É lá que pipocam ameaças à emenda da reeleição. É de lá que surgem articulações para derrubar os candidatos governistas às presidências da Câmara e do Senado.
A rebelião do baixo clero - a maioria anônima dos parlamentares que não ocupa cargos e raramente sai nos jornais - traduz-se na tentativa de aumentar as tarifas políticas. Quando a aliança política não está lastreada em idéias ou ideais, há de sustentar-se em interesses fisiológicos. Em português claro, cargos e verbas.
A lista de parlamentares do PPB que estão em débito com o Banco do Brasil é, nesse sentido, emblemática. Não há nada de errado em alguém dever a um banco. Eles existem, afinal, para isso mesmo: bancar financeiramente indivíduos e empresas. O errado está em manipular esses débitos a partir de critérios políticos.
Os cidadãos mortais comuns, que não serão consultados sobre a emenda da reeleição, pagam seus débitos segundo regras previamente estabelecidas pelo banco. Os cidadãos especiais, munidos de mandato parlamentar, podem prevalecer-se de outra regra, adaptada a suas conveniências, desde que se disponham a colaborar com os interesses do governo e votar favoravelmente suas propostas.
Podem também, caso insistam em não colaborar, ser obrigados a, imaginem, cumprir a lei, pagando seus débitos em dia acrescidos de juros e correção. É essa a lógica da lista. Foi elaborada para pressionar indecisos, ‘‘ajudando-os’’ a decidir. A batalha da reeleição, neste momento, transita entre o balcão e o guichê. Até março chega ao plenário para o tudo ou nada, a um custo que os mortais comuns, que pagam a conta, provavelmente jamais o saberão.

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