Ruy Fabiano
A presença do papa em solo brasileiro acentua a fragilidade do governo Fernando Henrique na área social. É esse o calcanhar-de-aquiles que os adversários, de fato e de conveniência, procuram explorar, neste momento que precede a campanha eleitoral.
O presidente, que em suas entrevistas insiste em proclamar o caráter distributivista do Plano Real, constatou que também o papa, a julgar por suas entrevistas e pronunciamentos, que enfatizam a situação dos excluídos, diverge desse ponto de vista.
É óbvio que não foi o atual governo que produziu esse quadro social caótico, que remonta às capitanias hereditárias e aprimorou-se, ao longo dos séculos, na arte de produzir exclusão.
O ponto está em que Fernando Henrique insiste em que o Plano Real estaria produzindo uma revolução nesse setor - e numerosos especialistas o negam. O ministro da Fazenda, Pedro Malan, por exemplo, em recente pronunciamento, sem pretender divergir do presidente, admitiu que o real já tinha esgotado sua capacidade redistributiva. Daqui para frente, redistribuição de renda, disse ele, só a partir de políticas específicas, que, ao que se saiba, não estão no horizonte.
Há dias, o economista Márcio Pochmann, diretor-executivo do Centro de Estudos Sindicais da Universidade de Campinas, não apenas desmentiu a idéia de que o real redistribuiu renda, como, muito ao contrário, firmou: a concentração de renda é a maior dos últimos dez anos, o nível de emprego idêntico ao de 1993, a renda dos autônomos está caindo, a margem de manobra do governo é pequena - e, por fim, a situação, nos termos em que se apresenta, deve piorar.
Fernando Henrique incomodou-se com o enunciado, e deu ordens a que o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Pedro Parente, respondesse à entrevista do professor. O governo não abre mão de seguir afirmando que, se o quadro social ainda é ruim, está, no entanto, em franca melhora, graças às atenções que estaria dedicando ao setor. É uma polêmica, digamos assim, trabalhosa.
O presidente já a sustentou com o Tribunal de Contas da União, que, em recente relatório, constatou que os investimentos do governo na área social haviam se reduzido. O presidente ficou uma fúria e afirmou categoricamente que os números do TCU não eram verdadeiros.
A dança dos números, porém, é menos eloquente que a percepção mediana que o cidadão comum tem dos fatos. E o que se percebe é que o governo não sistematizou políticas. Elas entraram em sua agenda pela porta dos fundos, em meio às tragédias dos sem-terra.
Não há dúvida de que, na área fundiária especificamente - objeto de críticas do papa -, o goveno tem procurado acelerar providências, muito embora de maneira improvisada, premido pelas pressões dos acontecimentos. A estabilidade da moeda - um trunfo político poderoso - não está sendo suficiente, como pensou o governo, para encobrir mazelas sociais desprezadas pelos pacotes econômicos.





