Ciro Gomes não gosta, mas é cada vez mais difícil dissociar sua estratégia e objetivos político-eleitorais dos de Fernando Collor, em 1989. Abstraiam-se os elementos mais óbvios - a juventude de ambos, a retórica provocativa, a volúpia da performance - e examinem-se tão-somente os fundamentos doutrinários da sua candidatura.
É difícil entender exatamente o que propõe. Sabe-se que, ao contrário de seus novos companheiros de PPS, não é contrário às reformas, que são o fundamento do governo de Fernando Henrique. Ao contrário, reclama exatamente do fato de que não foram realizadas com a abrangência e profundidade que considera necessárias.
As críticas que faz às esquerdas não são diferentes das de Fernando Henrique. Acha-as retrógradas e sem projeto. Por que razão, então, filiou-se a um partido de esquerda e quer atrair o apoio dos demais? O que se percebe - e isso fica ainda mais nítido quando se lê recente entrevista de seu mentor ideológico, o cientista político Roberto Mangabeira Unger, à ‘‘Folha de S.Paulo’’ - é que se trata de um projeto político pessoal, de cunho oportunista, que pretende jogar com insatisfações e frustações da massa desorganizada e da classe média.
Não há uma proposta para atendê-las ou para encaminhar seus pleitos, apenas para mobilizá-las. Como diz Mangabeira, é preciso praticar a ‘‘política de alta temperatura’’, aquela que joga com a adrenalina alheia e investe no marketing da bílis. Sua receita é: ‘‘Fazer guerra. Guerra contra o governo e guerra contra a pessoa do presidente, mostrando ao país quem ele 钒. Collor jogou esse jogo contra José Sarney, em 1989.
Ao falar em ‘‘mostrar ao país quem ele 钒, Mangabeira sugere algo como desmascarar o presidente, que, nesse caso, seria um farsante. Só se desmascaram farsantes (a não ser, claro, que se esteja num baile de carnaval). Ciro, porém, diz, em recente entrevista a Carta Capital, que o presidente ‘‘é uma boa pessoa, um homem de bem’’. Essa parece ser uma divergência não prevista, mas obviamente sucundária.
Mangabeira louva no presidencialismo brasileiro a oportunidade de ‘‘permitir viradas de mesa’’, no estilo Fernando Collor. Sua proposta-síntese é exatamente despertar a porção desorganizada da sociedade e a parte insatisfeita da classe média para, tal como Collor em 1989, virar a mesa e tirar o poder das mãos da porção organizada.
Não diz em nenhum momento o que fará com o poder, nem em que medida recompensará os descamisados por viabilizarem essa conquista. Sente-se que a energia criativa de ambos está concentrada na forma de conquistar o poder - e não no conteúdo que pretendem imprimir a ele quando (e se) o conquistarem.
O máximo que Mangabeira adianta, quanto a isso, não esclarece muito: ‘‘Criando um pequeno trauma, um pequeno desvio, você produz (na sociedade) um élan que pode ser mobilizado para a etapa seguinte’’.
O ‘‘pequeno trauma’’, neste momento, atende pelo nome de Ciro Gomes, que, a bordo de um partido (tal como Collor), pretende materializar uma sentença bíblica, citada por Mangabeira: ‘‘Quebrarei as coisas grandes com as coisas pequenas’’. Vade retro.

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