Ruy Fabiano
O enigma político em que se transformou o governador de Pernambuco, Miguel Arraes, começa a preocupar o candidato Ciro Gomes. Arraes foi o ponto de partida da candidatura de Ciro. Acenou-lhe com o ingresso no PSB e, a partir daí, a idéia de uma frente de centro-esquerda contra Fernando Henrique começou a ganhar espaço na mídia.
Só que o convite a Ciro não se confirmou. Diante de reações nas bases do PSB, sobretudo as do Ceará, Arraes mudou de assunto. Não rompeu, mas tornou-se mais reservado. Ciro pediu uma definição e, não a encontrando, entrou no PPS. Mas continuou acenando a Arraes.
Arraes continuou (e continua) falando da frente de centro-esquerda e da candidatura única à presidência, mas nem cita Ciro, nem Lula - as duas alternativas concretamente postas. Também não fala em causa própria. Não pretende ser ele mesmo candidato. Qual seria então a sua? O enigma começa a ser decifrado agora, com o súbito interesse em atrair Itamar Franco para a causa da frente de oposições.
Arraes não esconde que vê em Itamar um nome excelente para unificar as oposições - um nome melhor que Ciro Gomes ou Lula. Isso porque Itamar atrairia consigo boa parte do PMDB, o que não aconteceria nem com Ciro, nem muito menos com Lula.
E não apenas: as posições nacionalistas de Itamar estão mais próximas de Arraes e do PSB que as de Ciro. A rigor, Ciro não diverge do programa de governo Fernando Henrique. Critica apenas o modo como o presidente o conduz e, sobretudo, o fato de não o estar cumprindo na extensão e profundidade que considera necessárias.
Itamar, assim como Arraes e a esquerda, diverge do conteúdo. É contrário às privatizações das grandes estatais, e pronto. Ciro, não: sustenta seu discurso crítico a Fernando Henrique a partir da acusação de que o presidente estaria traindo as reformas, fazendo-as pela metade e concedendo excessivamente ao fisiologismo.
É curioso - e paradoxal - que esse discurso, que cobra do governo atitude de radicalismo nas reformas, passe a ter como sustentáculo o PPS (ex-Partido Comunista) e demais partidos de esquerda, cujo ideário simplesmente repele as reformas. Detalhes, porém.
Há entre Itamar e Ciro um acordo de cavalheiros. Ambos tentarão viabilizar suas respectivas candidaturas e, a certa altura do processo, o que tiver menos chances cede ao que tiver mais. Um pacto frágil, como costumam ser os pactos políticos selados sem testemunhas, com enorme antecedência e em cenário ainda hipotético.
Itamar, afinal, nem se sabe se quer concorrer à presidência ou se ficará mesmo contra a candidatura de Fernando Henrique. Seu projeto básico prossegue sendo o de candidatar-se ao governo de Minas com o apoio do presidente. Nada impede, no entanto, que converse com Arraes, sele pactos com Ciro, telefone periodicamente a Fernando Henrique e mantenha todos em suspense. Faz parte do espetáculo.





