Ruy Fabiano
A candidatura Ciro Gomes, pelo PPS, aumentou o cacife do PMDB na sucessão presidencial. O partido, que até há pouco estava dividido entre apoiar Fernando Henrique ou lançar candidato próprio, acrescenta agora mais uma alternativa: aderir à candidatura de Ciro.
Se isso acorrer - e a definição não virá tão cedo -, o quadro sucessório adquire outra configuração. Por enquanto, a candidatura Ciro é mera provocação, a bordo de uma legenda minúscula, o PPS, que, sem coligações, disporá, no horário gratuito no rádio e na televisão, de tempo suficiente apenas para dizer meu nome é Ciro.
É claro que tudo está apenas no início. A candidatura Ciro só será realidade se produzir um mínimo de aglutinação. Se não conseguir atrair nem o PSB, partido que levantou a lebre da frente de centro-esquerda, Ciro deve voltar a Harvard para dar continuidade a seus estudos. Não será, seguramente, candidato de si mesmo.
Voltemos ao PMDB. O partido, como se sabe, possui diversas facções - e nem todas se cumprimentam. A seção paulista, por exemplo, não mantém relações com a gaúcha, que ignora o comando nacional do partido, que, por sua vez, comanda de fato apenas a facção mais hostil ao governo federal. E é essa facção que, neste momento, se empenha por viabilizar candidatura própria à presidência da República.
O ex-governador Orestes Quércia, que disputará o governo de São Paulo, lançou há uns três meses a candidatura do senador José Sarney à presidência. Sarney gostou e, desde então, cuida obsessivamente do assunto. Não faz ainda proselitismo, mas tem mantido afiada sua retórica crítica ao governo federal.
As reservas que mantém decorrem da indefinição da diversas alas de seu partido. Itamar Franco, recém-filiado ao PMDB, tem algo a ver com isso. Enquanto não definir o papel que pretende desempenhar na sucessão presidencial, manterá Sarney e o partido em suspense.
É quase certo que Itamar disputará o governo de Minas, mas isso define apenas parte do mistério. Resta saber se estará disposto a apoiar uma candidatura autônoma do PMDB, pondo-se em rota de colisão com o Palácio do Planalto e com a candidatura de seu ex-ministro Ciro Gomes. É improvável. O que está em curso é acordo seu com Fernando Henrique para que um apóie o outro. Itamar faz jogo duro com Fernando Henrique apenas para mantê-lo sob tensão.
Fernando Henrique já confessou que não deseja tê-lo como adversário, e Itamar transformou esse constrangimento em moeda de troca: se o presidente o apoiar em Minas, será poupado de tê-lo como adversário. Fernando Henrique já deu mostras de que está de acordo, o que aprofundaria a divisão no PMDB.
A ala chapa-branca do partido, de que faz parte o presidente da Câmara, Michel Temer, ganha força considerável com Itamar, que, no entanto, em função de suas ligações com Ciro Gomes e Sarney, dificilmente seria entusiástico nessa adesão. Não atrapalhando, já será extremamente satisfatório para Fernando Henrique.





