Ruy Fabiano
O governador Miguel Arraes, cuja habilidade política foi recentemente elogiada pelo senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), um adversário ideológico, tornou-se peça-chave no processo sucessório.
Coube-lhe colocar em cena a dar consistência ao personagem Ciro Gomes, cuja candidatura fez desaparecer a certeza antecipada de reeleição de Fernando Henrique. Cabe-lhe agora viabilizar ou frustrar de vez a idéia de uma frente oposicionista pró-Ciro Gomes.
Arraes manifestou-se contrário à idéia de fusão de seu partido, o PSB, com o PPS, do senador Roberto Freire (e agora também de Ciro Gomes). Não é, porém, uma decisão definitiva. Arraes tem dificuldades pessoais com o senador Roberto Freire, seu conterrâneo, que se aproveitou das hesitações do PSB a atraiu Ciro para o PPS.
A bola, porém, ainda está com Arraes, que mantém abertos os canais de comunicação com o PT, o que já não acontece com Freire. A candidatura única de oposição é sonho praticamente desfeito. O PT não abre mão da titularidade dessa candidatura. Como Ciro não abre mão da dele, e desde ontem já dispõe da legenda do PPS para viabilizá-la, haverá no mínimo dois candidatos de oposição.
O sonho da candidatura única, no entanto, continuará a ser alimentado por algum tempo. E Arraes continuará a ser peça-chave nesse processo. Seu desembaraço como negociador surpreende. Não foi essa a imagem que firmou ao longo de sua carreira, muito pelo contrário.
Mostrou-se sempre inapetente para o jogo político, o que explica a pouca sedução que lhe exerceu o mandato parlamentar. O Executivo foi-lhe sempre mais atraente. Eis, porém, que, semanas após livrar-se de acusações incômodas na CPI dos Precatórios, onde sua condenação chegou a ser pedida, assumiu o comando das articulações oposicionistas em torno da sucessão.
Conseguiu sair das páginas políciais para as de política da noite para o dia, sem que as acusações da vésperas em nada comprometessem seu prestígio. Façanha admirável, embora não inédita em sua biografia. Arraes conseguiu algo semelhante na legislatura passada, quando teve seu nome citado na CPI do Orçamento.
Naquela opotunidade, foi divulgada carta sua à Construtora Odebrecht, em que pedia, a título de auxílio eleitoral, uma contribuição de US$ 30 mil por mês. Houve alguns constrangimentos, transtornos, mas, no fim das contas, sem que Arraes precisasse se dar ao trabalho de sentar no banco dos réus, o assunto foi esquecido. Seu prestígio, antes como agora, não foi arranhado.
GARNISÉO ex-presidente Collor compara a movimentação de Ciro Gomes à de um galinho garnisé. E explica: o galo garnisé cisca e canta no galinheiro para as galinhas e os pintinhos, mas, quando o galo chega, sai correndo.
Collor não diz quem é o galo dessa história.





