Como se esperava, a reunião de lideranças oposicionistas, ontem, em Brasília, em busca de uma candidatura única à presidência da República, não resultou em nada. O presidente do PT, José Dirceu, como era previsto, sugeriu solenemente a candidatura de Lula como quem anuncia uma profunda novidade.
Os presentes receberam a sugestão dentro da mesma pantomima e ficaram de examiná-la para, oportunamente, manifestar-se. O próprio Lula esteve presente. Entrou pela garagem do prédio (a reunião foi no apartamento do deputado Aldo Arantes, do PC do B de Goiás), evitou a imprensa, cumprimentou os participantes e retirou-se.
A discussão posterior não teve, na essência, grandes novidades. A oposição está dividida entre duas teses: ou apresenta uma chapa de esquerda, tipo Lula-Brizola, ou lança outra, de feitio mais centrista (Ciro Gomes ou Itamar Franco).
O PT, maior dos partidos de oposição - e sem o qual não dá para falar em candidatura única -, quer a chapa com Lula na cabeça. Admite conversar com setores mais ao centro, mas não admite ceder o candidato: ou é dele ou assunto encerrado.
O partido reivindica essa prerrogativa. O PPS, de Roberto Freire, um dos maiores entusiastas da candidatura Ciro Gomes - e que ontem voltou a oferecer o partido ao ex-ministro, que hoje deve se desligar do PSDB oficialmente -, argumenta que não se trata de discutir prerrogativas, mas, sim, estratégias.
A lógica da candidatura Ciro Gomes é a mesma que há doze anos mobilizou a oposição ao regime militar em torno da candidatura Tancredo Neves. Naquela oportunidade, o grande nome da oposição, que poderia reivindicar direitos de candidato, era Ulysses Guimarães.
A eleição, no entanto, dependia de votos de fora da oposição. Era preciso atrair dissidências - e Tancredo, com perfil mais conservador e maleável, se prestava mais a essa estratégia. Ulysses, diante da lógica desses argumentos, acabou cedendo. E a oposição triunfou.
Na eleição do próximo ano, o quadro, em circunstâncias completamente distintas, guarda semelhanças. A chance da oposição está na sua capacidade de atrair apoio de forças do campo governista.
Lula se presta menos a esse papel, na medida em que firmou imagem de alguém que compromete conquistas do Plano Real. Foi nesses termos que ele perdeu a eleição passada. Fernando Henrique torce para que seja ele o candidato e que se repita a disputa polarizada de 1994.
Se isso acontecer, dificilmente o resultado seria outro. Se, porém, o candidato vier do centro - Ciro ou Itamar, por exemplo -, a situação se modifica. Essa a convicção do governador Miguel Arraes, presidente nacional do PSB, e de Roberto Freire, do PPS.
Essas duas posições não foram reveladas ontem. Já vêm sendo expostas há semanas. A reunião de ontem prometia uma definição mais nítida ou pelo menos uma agenda para equacionar o impasse.
Nesse sentido (assim como em todos os outros), não houve avanços. Todos deixaram o encontro com as mesmas certezas com que chegaram. E, quando ninguém tem dúvidas, não há possibilidade de avanço.

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