A recente saída do ministro Sérgio Motta da Executiva Nacional do PSDB enseja algumas reflexões sobre a grande bagunça ideológica que caracteriza o quadro partidário brasileiro.
O ministro justificou seu gesto com um argumento nobre: não aceita o vale-tudo de seu partido, que, em busca de expansão física, abre mão de parâmetros morais mínimos e aceita a adesão de personagens de reputação questionável, como o ex-governador Nilo Coelho (BA).
É uma novidade o ímpeto seletivo de Motta. Em passado recente, quando presidia o partido o ex-deputado Pimenta da Veiga, Motta estava em trincheira diametralmente oposta. Era ele que, em rota de colisão com Pimenta, sustentava a necessidade de expansão física do partido, sem necessidade de pedir atestado ideológico a ninguém.
Foi aí que começou a surgir o partido-ônibus, que embarca quem lhe fizer aceno. Pimenta, que defendia o estabelecimento de uma peneira ideológica, acabou perdendo prestígio e sendo sucedido pelo senador Teotônio Vilela filho (AL), hoje criticado por Motta por defender as posições que foram suas no passado. Mais interessante, porém, é examinar o que está por trás disso tudo.
Motta não tem qualquer restrição pessoal a Nilo Coelho, com quem jamais manteve relações. Claro que Nilo não é exatamente uma vestal da política, mas esse também não é o ponto, como se deduz pela tolerante política de filiações sustentada no passado pelo ministro.
O ponto é que o ministro atende a pleitos do senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), arquiinimigo de Nilo Coelho, que, por sua vez, está sendo apoiado pela esquerda baiana, arquiinimiga de ACM. Nilo marcou sua administração na Bahia pelo fisiologismo e por gestos de grande truculência. Ficou célebre o seu gesto de atropelar um fotógrafo que registrara sua saída do fórum, após depoimento (o que, claro, não lhe gerou qualquer contratempo adicional com a Justiça. Detalhes).
Não se trata, para dizer o mínimo, de alguém com perfil habitualmente exigido pela esquerda para alianças. O PSDB da Bahia, diferentemente de suas outras seções estaduais, foi formado por políticos oriundos do PC do B. Foi a única seção do partido que, nas eleições passadas, não votou em Fernando Henrique. Aliou-se ao PT, deixando para o PFL de Antonio Carlos Magalhães a exclusividade da vitória.
A aliança dos ex-militantes do PC do B com Nilo tem um sentido pragmático: construir uma frente ampla contra ACM. Pouco importa, nesses termos, o perfil ideológico ou moral de Nilo. Interessam as adesões que poderá trazer e a adrenalina que provoca em ACM.
Motta também não está preocupado com o conteúdo da adesão. Interessa-lhe estreitar a aliança com ACM - um aliado sempre útil no plano federal -, em detrimento de uma seção tucana com um passado de infidelidade e uma perspectiva futura de poucos votos e muita turbulência. Entre mortos e feridos, como se vê, não se salva ninguém.

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