Ruy Fabiano
Lula garante que seu nome não será obstáculo a uma candidatura única das oposições, mas não admite retirá-lo em benefício de nomes de centro, como Ciro Gomes ou Itamar Franco. Acha, no entanto, indispensável que as esquerdas atraiam esses personagens.
Cita a entrevista do mega-empresário paulista Antonio Ermírio de Moraes a Veja desta semana, em que critica asperamente o governo Fernando Henrique, mas não admite ter alguém como ele cabeça de chapa ou mesmo como vice à sucessão presidencial.
A lógica do PT evidencia as dificuldades da candidatura única. O partido admite conversar com todo mundo, desde que, ao final, prevaleça um candidato seu à presidência. Aceita apoios até de conservadores, mas não se dispõe a apoiá-los.
Lula diz que não é obstáculo, mas, nesses termos, é. Só admite abrir sua candidatura para alguém do próprio partido - e dentro do partido, neste momento, não se cogita de mais ninguém, a não ser ele próprio. Volta-se assim à estaca zero, já que os oposicionistas de centro não crêem na viabilidade de uma candidatura como a de Lula, restrita ao campo da esquerda.
A dobradinha Lula-Brizola poderia ter sido de grande impacto eleitoral no passado. Hoje, restringe as alianças à esquerda. O governador Miguel Arraes, que marcou a reunião das esquerdas para depois de amanhã, em Brasília, não crê na dupla. Mas não quer desafiá-la. Ele aparentemente está mais preocupado em ampliar os quadros do PSB, partido que preside, que em emplacar a sucessão.
O PPS, do senador Roberto Freire, está disposto a acolher a candidatura Ciro Gomes, se ela de fato existir. Ciro é a chave do enigma. Não se sabe ainda se blefa ou joga pra valer. Os prazos legais de filiação partidária se estreitam e as definições acontecem em poucos dias. As peças do tabuleiro de xadrez só agora começam a ser identificadas. Além de Ciro, há Itamar Franco e José Sarney.
Fala-se também no ministro Sepúlveda Pertence, do STF, apresentado como reserva técnica e moral, cuja formação de esquerda seria garantia de fidelidade aos fundamentos oposicionistas. Tudo, porém, é especulação. O fundamento básico - a candidatura única - não está equacionado. A reunião de quinta-feira é o ponto de partida de uma longa discussão que envolve interesses complicadíssimos. O que se constata é que não há consenso em torno de uma idéia-mestra.
Há, ao contrário, propostas excludentes. A do PT, por exemplo, sustenta a necessidade de atrair gente do centro para uma candidatura de esquerda; a do PPS, ao contrário: é preciso atrair gente de esquerda para uma candidatura de centro (Ciro Gomes, por exemplo), que divida a base governista.
As atenções estão voltadas para o governador Miguel Arraes, considerado há dias pelo senador Antonio Carlos Magalhães como o mais competente político da oposição: trabalha em silêncio e circula em todas as áreas, só não se sabe ainda exatamente com que objetivo.





