Há tradições na política brasileira que de tão sólidas parecem imunes à ação do tempo. Uma delas é a síndrome do padrinho, pela qual o apadrinhado em algum momento acabará traindo o seu patrono, de preferência logo depois de receber o benefício. É o velho mito da criatura que devora o criador.
Exemplos não faltam, recentes ou remotos. O falecido Vitorino Freire, antigo cacique maranhense, queixava-se de José Sarney; Jarbas Passarinho, de Alacid Nunes; Chagas Freitas, de Miro Teixeira; Orestes Quércia, de Luís Antonio Fleury; Brizola, de todo mundo.
O exemplo mais atual é o que coloca em campos opostos o governador do Ceará, Tasso Jereissati, e seu pupilo Ciro Gomes. Diga-se, antes de mais nada, que essa é uma das mais duradouras parcerias da história política nacional. Sobreviveu a dois mandatos do pupilo - de prefeito de Fortaleza e de governador do Ceará -, além de uma passagem pelo Ministério da Fazenda, no governo Itamar Franco. É possível, porém, que não sobreviva à próxima sucessão presidencial.
Tasso Jereissati, empresário bem-sucedido, adentrou o cenário político com pretensões bem mais amplas que a de ser uma simples liderança regional. Assumiu o governo do Ceará pela primeira vez em 1986, a bordo de um discurso modernizante, que prometia aplicar princípios gerenciais competitivos da livre iniciativa na enferrujada máquina estatal cearense. Era, segundo o seu marketing político, o golpe de misericórdia nos coronéis da política local.
Ciro Gomes, por suas mãos, chegou à Prefeitura de Fortaleza e credenciou-se por seu desembaraço - sobretudo por sua oratória fluente e convincente -, a sucedê-lo no governo. Tasso planejou o seu salto para o cenário nacional com cuidado, mas não teve a sorte de Ciro. No governo Sarney, foi convidado para trocar o governo cearense pelo cargo de ministro da Fazenda.
Foi vetado por Ulysses Guimarães, que não admitia que se entregasse a chave do cofre a alguém fora do circuito paulista. Tasso ofendeu-se mortalmente com Ulyses e deixou o PMDB. Foi a única liderança nordestina de peso a unir-se aos fundadores do PSDB.
Ciro o acompanhou e, no governo Itamar, ocuparia o Ministério da Fazenda negado anteriormente a seu padrinho. Conseguia então, sem maiores planejamentos, a projeção nacional tentada com tanto empenho por Tasso. A situação agora se repete.
Todos sabem, dentro do PSDB, que Tasso Jereissati era a alternativa presidencial do partido na eventualidade de a emenda da reeleição não ter sido aprovada pelo Congresso. Teria, inclusive, o apoio de Fernando Henrique. Com a reeleição, seu nome estaria previamente lançado para 2002, depois de nova passagem pelo governo do Ceará.
Eis, porém, que Ciro Gomes, correndo por fora e sem que ninguém esperasse, se interpõe mais uma vez entre seu padrinho e o futuro. O que se diz é que, se Ciro quiser, atropela o projeto reeletivo de Tasso e sua meta presidencial de 2002. Mais uma vez, a criatura janta o criador.

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